Dirigido por Sam Raimi, Socorro! (Send Help, 2026) marca o retorno do cineasta ao território do terror com humor ácido e situações extremas, agora embaladas por uma narrativa de sobrevivência que serve como comentário sobre relações de poder, misoginia corporativa e instinto de autopreservação. Estrelado por Rachel McAdams e Dylan O’Brien, o filme chega aos cinemas apostando em uma dinâmica de dois personagens isolados do mundo — e em constante conflito — para sustentar sua tensão dramática.
Rachel McAdams, recentemente homenageada com uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, construiu uma carreira marcada pela diversidade de gêneros e personagens. Ainda assim, Socorro! oferece à atriz um dos papéis mais fisicamente exigentes e narrativamente centrais de sua trajetória. Aqui, ela interpreta Linda Liddle, gerente do setor de Planejamento e Estratégia de uma grande empresa que opera sob a lógica impessoal das corporações fictícias típicas do cinema norte-americano.
Linda acredita estar prestes a ser promovida, promessa feita pelo antigo CEO da companhia. No entanto, após a morte do executivo, o comando passa para seu filho, Bradley, vivido por Dylan O’Brien. O novo chefe descarta a experiência de Linda com naturalidade, reforçando uma hierarquia marcada por arrogância, despreparo e preconceito. Em uma tentativa protocolar de amenizar a situação, Bradley convida Linda para integrar uma viagem de negócios à Tailândia — decisão que desencadeia os eventos centrais do filme.
Um desastre aéreo elimina todos os outros passageiros e deixa apenas Linda e Bradley presos em uma ilha isolada. A partir daí, Socorro! abandona o ambiente corporativo para se transformar em um estudo de sobrevivência e convivência forçada. Raimi explora o contraste entre os dois personagens: Linda revela habilidades práticas adquiridas em experiências anteriores, enquanto Bradley demonstra total incapacidade de lidar com qualquer situação fora de sua zona de conforto.
O roteiro de Damian Shannon e Mark Swift estrutura essa relação como um jogo constante de inversões. O que começa como uma dinâmica previsível logo se transforma, à medida que dependência, ressentimento e estratégias pessoais vêm à tona. O filme não se contenta em estabelecer heróis ou vilões claros, preferindo explorar como circunstâncias extremas expõem contradições e impulsos pouco nobres.
Sam Raimi imprime sua marca ao equilibrar humor sombrio, tensão psicológica e momentos de choque calculado. O uso de efeitos práticos combinados com computação gráfica remete à filmografia anterior do diretor, ainda que alguns elementos visuais assumam um tom deliberadamente artificial. A violência existe, mas funciona mais como ferramenta narrativa do que como espetáculo gráfico.

Crítica: vale à pena assistir Socorro! nos cinemas?
As atuações de McAdams e O’Brien sustentam o filme quase inteiramente. A interação entre os dois evolui de forma imprevisível, mantendo o espectador em constante dúvida sobre intenções e desfechos possíveis. Socorro! se beneficia dessa ambiguidade, recusando soluções fáceis e apostando em um final que dialoga com os temas de competição, controle e sobrevivência apresentados desde o início.
Ao transformar uma história de isolamento em um retrato distorcido das relações profissionais e humanas, Socorro! reafirma Sam Raimi como um diretor interessado menos na sobrevivência física e mais nas consequências morais de quem, afinal, consegue permanecer de pé.