Serra Pelada (2013) - Crítica do Filme de Heitor Dhalia Serra Pelada (2013) - Crítica do Filme de Heitor Dhalia

Serra Pelada (2013) | Crítica do Filme de Heitor Dhalia

Dirigido por Heitor Dhalia e escrito em parceria com Vera Egito, Serra Pelada (longa de 2013 atualmente disponível na HBO Max) utiliza um dos episódios mais emblemáticos da história recente do Brasil como pano de fundo para contar uma narrativa sobre ambição, poder e ruptura de laços humanos. Ambientado no auge do maior garimpo de ouro a céu aberto do país, o filme opta por não assumir um viés histórico ou investigativo, preferindo transformar o contexto real em cenário para um drama moral de inspiração clássica. Leia a crítica do filme.

A trama acompanha Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Júlio Andrade), dois amigos que chegam ao Pará no início dos anos 1980 impulsionados pela promessa de enriquecimento rápido. À medida que o dinheiro passa a circular com mais intensidade, a relação entre eles se deteriora. Juliano se aproxima das estruturas de poder do garimpo, enquanto Joaquim observa a transformação do amigo e o impacto do ouro sobre a ética e a convivência humana. O conflito central surge menos dos acontecimentos externos e mais da mudança de hierarquia entre os dois protagonistas.

Heitor Dhalia constrói Serra Pelada a partir de referências claras ao cinema de gângster norte-americano. A organização do garimpo como um território regido por facções, acordos informais e violência constante aproxima o filme de obras como Os Bons Companheiros e O Poderoso Chefão. O local funciona como um mundo paralelo, afastado das regras da sociedade formal, onde o poder é exercido por meio da força e do dinheiro. Essa escolha estética busca traduzir o garimpo como um espaço de exceção, uma espécie de faroeste brasileiro do século XX.

O filme também recorre ao uso de narradores internos para conduzir o espectador por esse universo. Juliano e, sobretudo, Joaquim assumem a função de explicar a lógica do lugar, facilitando a compreensão da trama. Essa opção, no entanto, resulta em um excesso de didatismo, com falas que verbalizam constantemente a ideia central da história — a noção de que o ambiente corrompe os indivíduos — em vez de permitir que ela emerja das ações e dos conflitos.

Tecnicamente, Serra Pelada apresenta um trabalho consistente. A reconstituição cenográfica do garimpo, a fotografia e a trilha sonora ajudam a criar uma atmosfera marcada pelo caos, pela precariedade e pela tensão permanente. O elenco numeroso é um dos pontos de maior destaque do filme. Além de Cazarré e Júlio Andrade, atores como Wagner Moura, Sophie Charlotte, Matheus Nachtergaele, Silvero Pereira, Jesuíta Barbosa e Júlio Andrade contribuem para dar densidade ao universo retratado, mesmo quando seus personagens têm pouco espaço de desenvolvimento.

Serra Pelada (2013) - Crítica do Filme de Heitor Dhalia

Crítica do filme: vale à pena assistir Serra Pelada?

Ainda assim, o filme enfrenta dificuldades em aprofundar seus personagens e estabelecer maior envolvimento emocional com o público. Ao priorizar a construção visual e as referências a modelos narrativos já conhecidos, Serra Pelada acaba permanecendo na superfície dos temas que propõe discutir. O resultado é um retrato impactante em termos de forma, mas que limita suas possibilidades dramáticas ao não explorar com mais profundidade as contradições humanas que surgem naquele cenário extremo.