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Seriam os filmes da Marvel Studios uma dramédia?

Várias pessoas reclamam dizendo que os filmes da Marvel são rasos. Será que é real?

Becky C.

16 ago, 2021

Uma reclamação recorrente que ouvimos sobre os filmes Disney-Marvel é a ideia de que eles são muito superficiais e galhofas. As pessoas querem um pouco de realismo e, teoricamente, seus filmes de super-heróis não entregam o que o público quer: conexão, sentimentos conflitantes, um toque de realidade. Mas será que é isso mesmo?

Marvel vs DC: narrativas realistas ou absurdas?

Uma das brigas atuais é sobre se o filme é "realista" ou não (isso, claro, falando dos filmes de super-heróis), o que chega a ser hilário quando pensamos que querem realidade em uma história sobre um cara que veio do espaço e é o ser mais poderoso do planeta. Mas é isso que acontece, e essa é a justificativa de muitos fãs para odiarem uma e amarem outra - ou, mais especificamente, amarem o diretor responsável.

Nos primórdios dos quadrinhos da DC Comics, por exemplo, os personagens não possuíam nem passado trágico nem conflitos. Era o herói VS os bandidos. Se você pôr as mãos nas primeiras histórias do Batman, por exemplo, ele era basicamente um cara rico e entediado que resolveu lutar contra o crime. Seus inimigos não possuíam complexidade, nem camadas, e nem mesmo o próprio protagonista tinha isso. A primeira aparição da Batwoman, hoje em dia uma personagem não só intensa, mas com uma narrativa própria e poderosa, era a de uma mulher apaixonada pelo herói e que, para chamar a sua atenção, tornou-se "heroína". Seus itens envolviam versões ridículas das mesmas armas usadas pelas Três Espiãs Demais, e várias promessas do Batman de casar com ela e fugindo. Essa era a profundidade das histórias.

Então veio Stan Lee, aquele cara que ninguém conhecia e que nem quadrinhos queria escrever, mas foi induzido pela esposa a tentar e acabou se tornando apenas um dos maiores nomes da área, com diversos personagens icônicos que fazem sucesso até hoje. Um deles é um rapaz que surgiu franzino, ganhou os poderes por acaso, resolveu usá-los de maneira egoísta e teve que ver o tio que o criou morrer por irresponsabilidade sua - mesmo que indiretamente. Reconheceu? Sim, Peter Parker foi o primeiro "mocinho" dos quadrinhos (entre DC e Marvel) a ter não só um passado trágico, mas uma vida difícil. Ao longo da sua história, vemos o adolescente amadurecendo por detrás da máscara, aprendendo, às vezes, da pior maneira, a usar suas habilidades - como quando Gwen Stacy morre. Apesar das pessoas culparem o Duende Verde, ela poderia ter sido salva... Se o Homem-Aranha soubesse usar seus poderes totalmente. Infelizmente, quando sua teia chegou ao corpo da moça, ele puxou com tanta força que o pescoço dela quebrou. E, assim, o nosso menino teia tem que conviver com essa culpa (algo que vemos no arco Homem-Aranha Azul).

A partir desse personagem vários outros ganharam espaço (inclusive, algumas primeiras aparições são na revista dele), pois viu-se que os jovem se identificaram de tal forma, que o Homem-Aranha ficou muito famoso. Assim, os criadores de quadrinhos pararam e pensaram "Epa! Isso dá lucro!", e assim as histórias trágicas icônicas que conhecemos nasceram, como o Batman tendo seus pais assassinados (ou seja, quem realmente matou os pais de Bruce Wayne foi Peter Parker!) e ganhando inimigos que vão além de serem meros vilões, marcando a cultura pop para sempre, como Coringa, que ganhou até mesmo o próprio filme e tem fãs pelo mundo inteiro.

Ou seja, o ser humano é uma criatura social, que necessita de conexão e, ao assistir algo, busca-se uma certa representatividade - não necessariamente voltado para minorias, mas relacionado a como nos sentimos. Um(a) personagem sem profundidade pode nos divertir, como é o caso do filme Aquaman, que se segura no carisma do seu protagonista. Entretanto, o que se espera é que hajam camadas e, internamente, quem sabe, nos sentirmos um pouco como aqueles(as) super-heróis(heroínas). As pessoas querem imaginar que aquilo poderia ser real, acontecer ali, perto delas, ou até mesmo com elas e, com isso, acham que, porque um filme tem piadas para aliviar um pouco a tensão, ele é automaticamente raso e atribuem isso à Marvel. Mas será que é isso mesmo?

Homem de Ferro e seu arco trágico

Muitas pessoas consideram o terceiro filme da trilogia do Homem de Ferro como sendo um dos piores filmes. Não posso discordar totalmente, mas também não concordo. Segura o pensamento que vamos chegar lá.

A apresentação do personagem é bem simples, e o primeiro filme (2008) é feito para mostrar quem ele é e apostar em uma certa evolução dele. Tony Stark é somente mais um rico bilionário - apesar de ser um completo gênio tecnológico e isso ajudar a sua fortuna a crescer - até que situações trágicas acontecem e é obrigado a encarar as consequência dos seus atos. Sabemos que a indústria da guerra é extremamente lucrativa e os EUA é um país que monta nisso desde, sei lá, sempre. E em Homem de Ferro (2008), Tony encara isso: apesar de lhe render bons dinheiros e fama, seu legado é a morte.

E ele não quer mais isso, então terminamos um com arco evolutivo frutífero e bem construído. Em Homem de Ferro 2 (2010), Tony toma várias decisões autodestrutivas, pois está sendo envenenado lentamente pela armadura, que usa o dispositivo no seu peito para se alimentar e funcionar. O medo o leva a ser imprudente e impetuoso, como se desafiasse a morte e, assim, provasse que não tem medo de nada. Além desse tema sensível, temos um vilão que está atrás de vingança. Apesar de um plot simples relacionado a ele, o que ele impulsiona aqui é a mortalidade de Tony Stark, aumentando a relação que o protagonista tem com a ideia da própria morte, além de, claro, explorar mais uma vez as consequências do seu passado ou, nesse caso, de seu pai. Em cima de tudo isso, o Homem de Ferro também tem que brigar com o governo, que se acha no direito de ter a tecnologia da armadura. Com tanta coisa acontecendo, não é a toa que Stark aumente sua dose de arrogância para esconder seus medos e a vergonha que sente por não conseguir lidar com tudo como queria. E sabemos que, no fim das contas, sozinho ele não resolveria nada.

Então temos o famigerado Os Vingadores (2012), em que Tony Stark quase morre para proteger a Terra. Mas, antes, temos um personagem que é totalmente acostumado a se isolar e trabalhar "sozinho" (já temos a prova no filme anterior que não é bem assim, não é senhor Stark?) e meio que rejeita os outros, inclusive, de cara, acontece um embate de macho alpha entre Stark e Steve Rogers. Depois com o Thor, depois que capturam Loki. Só posso dizer: ai ai, homens. (insira sticker revirando os olhos). Aqui, novamente, o Homem de Ferro é obrigado a parar de tentar controlar tudo e confiar cegamente em uma equipe que foi unida para o mesmo propósito. O seu ápice é quando decide se sacrificar por todos. Dessa experiência, veio O Homem de Ferro 3 (2013) e com ele, detalhes importantes sobre a construção do personagem que fogem da compreensão de muita gente (pelo menos com quem eu conversei). Tony está claramente sofrendo com o que chamamos de Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

"Muitas pessoas são afetadas de maneira duradoura quando algo terrível acontece. Em algumas, os efeitos são tão persistentes e graves que são debilitantes e representam um transtorno. Via de regra, os eventos mais propensos a causar TEPT são aqueles que invocam sentimentos de medo, desamparo ou horror. Combate, agressão sexual e desastres naturais ou provocados pelo homem são causas comuns do TEPT. No entanto, ele pode ser causado por qualquer experiência avassaladora e possivelmente fatal, como violência física ou um acidente de automóvel." (FONTE: MANUAL MDS)

Só isso já é uma parte importantíssima nos acontecimentos da vida do personagem, que, obviamente, ao invés de procurar ajuda psicológica, constrói Ultron numa tentativa de proteger as pessoas, mas isso é conversa para um pouco mais à frente. O fato é: temos um dos maiores personagens em tela, Tony Stark, sofrendo gravemente de um transtorno mental que, ao meu ver, foi bem representado. Só isso dá uma puta profundidade à trama, no qual temos Pepper desesperada tentando fazer ele se tratar ou descansar, qualquer coisa, ao invés de passar horas e horas construíndo máquinas com a ideia psicótica de que necessita disso para se resguardar de qualquer futuro ataque. Novamente, a tendência de Stark a se isolar é ativada, e uma tendência repetitiva de autodestruição mais contida é ativada.

"O evento traumático pode reaparecer repetidamente na forma de memórias indesejadas involuntárias ou pesadelos recorrentes. Algumas pessoas têm flashbacks, durante os quais elas revivem os eventos como se eles estivessem realmente acontecendo em vez de simplesmente se lembrarem deles. Também é possível que a pessoa também tenha reações intensas a coisas que a relembrem do evento." (FONTE: MANUAL MDS)

Tony Stark dando os primeiros passos como Homem de Ferro. Reprodução: Marvel.

Vemos cenas como essa durante o filme, no qual momentos cruciais são transformados em crises de pânico e puro desespero. Se nunca teve um ataque de pânico na vida, você é sortudo em não saber o que ele está passando. Quem teve, sinta-se abraçade. Para além da narrativa sobre lidar com traumas pesados, temos um segundo plot que pouca gente entendeu. A expectativa geral para esse filme foi enorme e, com a propaganda em cima do vilão Mandarim, foi ainda maior a decepção ao final do longa e isso impediu que se percebessem determinados pontos da trama que eu mesma, admito, só enxerguei após ler um artigo sobre.

No filme, o personagem Mandarim é uma completa farsa criada por Aldrich Killian, de forma a manipular as pessoas e se esconder por detrás dessa figura perigosa para cometer atos ilícitos e experimentos ilegais, algo que decepcionou quem queria o verdadeiro arqui-inimigo do Homem de Ferro nas telonas. Porém, apesar disso, a mensagem que esse plot twist passa é muito poderosa. Os EUA é um país que vende guerra, como dito anteriormente, e, para isso, precisam estar o tempo todo criando ameaças.

Em Homem de Ferro 3, é o Mandarim e a rede terrorista Os Dez Anéis. Porém, todavia, entretanto, também como foi falado acima, o verdadeiro inimigo era quem? Isso mesmo, um estadunidense. Se ainda não entendeu, deixe-me aprofundar. Existia, em teoria, um poderoso inimigo de fora, sendo que, na verdade, o VERDADEIRO INIMIGO é o próprio país, ou, se quiser ver dessa maneira, alguém de dentro. Quem destrói, corrompe, mata, comete atos ilícitos vem de dentro e não de fora, como vinha sendo mostrado. Não um estrangeiro poderoso, mas um produto nacional.

Infelizmente, com a baixa popularidade do filme, boa parte desse plot foi esquecido, e chegamos em Vingadores: A Era de Ultron (2015), em que Tony Stark cria Ultron em uma tentativa desesperada, exagerada e distorcida de tentar proteger todo mundo que ele ama. Então, o que temos aqui do personagem, até o presente momento, são traumas, perdas, medos, mas também conquistas, amores e novas amizades. O natural seria o equilíbrio, mas Tony não está equilibrado, está traumatizado, desenvolveu um transtorno mental que afeta seriamente suas escolhas e decisões, e os acontecimentos ao decorrer do filme só endossam ainda mais o que ele sente. Ah, a falta que uma terapia não faz, não é mesmo?

Chegando em Capitão América: Guerra Civil (2016), era mais do que natural a reação dele em relação à proposta do governo, principalmente após os acontecimentos do início do filme. Tony quer proteção acima de tudo, nem que precise sacrificar a si mesmo, algo já provado diversas vezes. Claro que boa parte do arco dele acaba sendo sobrepujado pela ansiedade que criamos ao ver o arco de Bucky e Steve, mas Stark está ali o tempo todo e, cara, que narrativa boa. Perfeita? Não, mas boa. O seu personagem tem todo o direito de se sentir traído, pois esperava que um dos seus amigos lhe apoiasse na ideia de proteger todo mundo da melhor maneira possível, dentro da legalidade, para evitar machucarem inocentes. Ele não entende os motivos de Steve, e menos ainda quando este resolve ficar ao lado de Bucky e, no fim, descobre que , talvez, o Capitão América não fosse tão bonzinho assim ao acobertar um perigoso assassino e, pior, esconder dele algo importante. A amizade aqui é posta em cheque e a raiva vence Stark, afinal, ele tem muito dela guardada em si, pois esse sentimento é uma resposta natural ao medo constante que ele sente.

Tony Stark é um personagem atormentado, traumatizado, com transtornos mentais, apavorado o tempo inteiro e é traído por alguém a quem ele confiou a própria vida. E sabemos, por todo o seu arco até o presente momento, que isso é MUITA coisa pra ele. Ao longo dos filmes, percebemos que ele lida com seus sentimentos se isolando, trabalhando muito, se apoiando em Pepper (emocionalmente) e com muito sarcasmo. Em Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017), isso fica mais claro ainda. Em um papel que beira à paternidade, Tony tentar proteger Peter de várias maneiras e fica bravo quando ele não obedece. Sem experiência com adolescentes ou em ser pai, o nosso querido gênio bilionário filantropo comete todos os erros de pai de primeira viagem: superproteger, mas sem estar tão presente ou entender os anseios do seu filho postiço, ou o deslumbramento dele com a sua própria figura - já que, apesar da arrogância aparente, O Homem de Ferro na verdade vive sob a sombra da Síndrome do Impostor (e se você não sabe o que é isso, pesquisa e espere sua mente explodir). Com Peter, Stark aprende uma nova lição e passa a dar o verdadeiro crédito que o nosso menino aranha merece, entendendo que essa proteção toda estava sufocando o rapaz e ele precisava da confiança dele, e não de superproteção (até porque, ele consegue segurar o murro de um supersoldado, pelamordi!).

Agora, em Guerra Infinita e Ultimato, temos novas facetas de Tony. Primeiro, você vê de cara o tanto que ele trabalhou para se aperfeiçoar e ter uma armadura que pode vestir com rapidez e precisão e com funções que são ABSURDAS DE TÃO FODAS! Você o enxerga confiando em quem não conhece (e sabemos que isso é MUITA COISA), fazendo mil planos e agindo como um verdadeiro líder para tentar lidar com a ameaça: Thanos, a realização e a materialização de todos os seus pesadelos. E quando o personagem consegue ter paz? Quando seu pior medo acontece. O que poderia ser pior do que aquilo?

Ele se casa, tem uma filha fofa, uma casa isolada e seu semblante não está carregado. Mas algo falta, e esse algo aparece quando precisa se envolver novamente na confusão do mundo para resolver um problema que ele mesmo achava que não havia solução: trazer todos de volta. E a agitação volta ao seu olhar. Pepper o apoia, como sempre. Ela sabe de tudo. E isso tudo culmina no final, quando ele se sacrifica de novo, mas, dessa vez, o fim chega - pois era a única maneira de dar um fim digno ao personagem. A frase final de Pepper para ele resume tudo, quando diz que ele finalmente pode descansar. E se você não chorou, vem pro clube dos coração de pedra.

Capitão América: tão bonzinho assim?

Em 1941, nascia o Capitão América para o mundo dos quadrinhos, sendo o primeiro super-herói engajado na luta contra o nazismo. Ele foi criado para esse contexto de Segunda Guerra Mundial, com o intuito mesmo de ser esse herói patriótico, um símbolo de "tudo o que faz com que os Estados Unidos sejam o melhor lugar do mundo para se viver” (fala de Joe Simon, um dos criadores do personagem). Após a Guerra Fria, ele perdeu e muito a sua popularidade, então foi com imensa surpresa que Steve Rogers, na pele de Chris Evans, não foi somente bem recebido, como se tornou uma imagem cativante e amada pelo público do cinema.

Em 2011 saiu Capitão América: O Primeiro Vingador. No longa, temos a apresentação de personagens importantes, como o próprio Steve, a agente Carter e Bucky Barnes. Sua aparição como um rapaz franzino, mas com ideais inabaláveis de justiça e honra, faz com que o protagonista conquiste seu direito de ser uma cobaia para se tornar um supersoldado - o primeiro de muitos. Ou era para ser assim. Infelizmente, esses planos são atrapalhados e ele acaba sendo (hoje sabemos que em teoria) o único de sua espécie. E justamente por isso, Rogers é impedido de entrar de verdade no exército (quem quer perder milhões de investimento?!) e, na necessidade de fazer qualquer coisa, de ser útil de alguma forma, acaba terminando como uma propaganda de guerra - ou seja, ironicamente, tornou-se o que nasceu para fazer nos quadrinhos.

Inicialmente incomodado e frustrado com o papel que recebeu, Steve veste o manto e, com o tempo, passa a se empolgar com a ideia de ser uma celebridade que ajuda a guerra. É um verdadeiro patriota! Percebe-se que ele ficou deslumbrado, achando que seu papel naquela palhaçada era realmente proveitoso. O Capitão América nunca tinha sido o centro de nada, a não ser de pancadaria gratuita, então esse papel se vende por algum tempo, até a frustração começar a bater e ele ser convocado para fazer um discurso motivacional para soldados que estavam em campo, exaustos e desanimados. É nesse momento que Steve Rogers dá o seu primeiro passo como super-herói, ao admitir que o que faz não só é inútil como está sendo subaproveitado ao ser obrigado a servir apenas como material de campanha. E, contrariando o que se esperaria do rosto da América do Norte, ele vai contra as ordens para ir atrás não só do seu melhor amigo capturado, como de outros soldados ao perceber que ninguém tomaria essa frente. A imagem inicialmente criada de menino ingênuo vai se quebrando, principalmente quando vemos a imagem chocante do Capitão América usando armas de fogo. Antes de se tornar um homem gigante e superforte, ele havia dito que não queria matar ninguém, porém, em momento algum ele hesita.

Os amigos fiéis Rogers e Bucky. Reprodução: Marvel

Quando revemos "bom moços" nas mídias, percebemos que eles sempre são ingênuos e se sentem traídos pelos ideais em que acreditavam, pois se aproveitaram do fato de eles serem "puros de coração". O que levaria à ingenuidade, à confiança cega a qualquer um que lhes apresente um objetivo. Essa temática é inicialmente trabalhada, mas logo é destruída. Rogers sofreu o pão que o diabo amassou por ser pequeno e franzino e ter um espírito de luta inabalável. Tanto que a mudança chega a ser brusca. Quando ele percebe que a guerra é injusta e iriam deixar soldados para trás e seu melhor amigo estava no meio, há uma rebeldia contra todo o sistema, pois o personagem é feito de emoção, de conceitos abstratos que vão além das regras: fazer o certo não importa o quê. O Capitão América atual, diferente de como foi criado, é feito de princípios - uma mudança que tiveram que fazer para que ele voltasse a ser relevante.

Afinal, quem gosta de cãozinhos do governo, que fazem o que ele quer, não importa se é certo ou não?! Steve Rogers é, no fim das contas, o que todo mundo gostaria de ser (principalmente os brasileiros que se acham cidadãos de bem), fazendo o que precisa ser feito. MAS, aqui encaixamos a fase: o fim justifica os meios. Por quê?! A dualidade faz parte desse filme: existe o mal e existe o bom. Ou assim deveria ser, pois, quando se enxerga bem, não há, de fato, um bonzinho na história, pois na guerra não existe isso. O nazismo é ruim e deve ser combatido. A Hydra é muito má e deve ser combatida. E assim, o Capitão América, empunhando seu escuro e uma arma de fogo, vai para a guerra. Ele faz o que é preciso, e não se importa em matar, afinal, ele é bom e os outros são maus. Para que seja aceitável matar outros, eles são desumanizados - como o caso do Caveira Vermelha.

A narrativa do Capitão América é interessante nos filmes pois, apesar de parecer ser unidimensional, ele na verdade é muito complexo. É um homem que nasceu e cresceu em ambiente de guerra. Ele é, literalmente, um soldado, mas, muito mais do que isso, um líder nato. Steve se esforça para cumprir sua promessa de ser uma boa pessoa, mas sabemos o quão difícil é isso. O que vemos sutilmente na sua construção é frustração e raiva, por exemplo, porque ele não queria que nada daquilo tivesse acontecido. Queria ter saído com Peggy, se casado, feito sua família, visto o mundo prosperar. Ao invés disso, ele acorda na iniciativa Vingadores. Guerra mais uma vez. Rogers se sente útil, ele precisa disso. Sem conflitos, ele não existe, não há utilidade ou vida para fora disso. Apesar de estar no presente, secretamente, vive no passado, e, na primeira oportunidade para voltar, ele a pega com força.

Steve Rogers não é simplesmente um bom moço que não pega as referências. Ele é um líder nato, que foi criado para a guerra. Mas também é um homem sonhador, que busca o melhor para si e para os outros dentro da realidade em que vive. Esse lado dele é explorado em Capitão América: Guerra Civil (2016), quando se vê frente a um acordo governamental em que seria podado, como tantos anos atrás aconteceu, ele rejeita. Aí ele entra em conflito com Tony que, sabemos, acha que é a melhor opção para proteger a população. Mas Rogers já viveu aquilo, e obviamente é algo que não quer reviver, estando totalmente apto a se tornar um fugitivo e lutar escondido (exatamente como fez na guerra).

Todos os cenários em que vemos Steve são de luta e guerra. Acho que um dos poucos momentos de verdadeira descontração dele é na festa que acontece no início de A Era De Ultron. De resto, me diga: quando o Capitão teve uma folguinha de ser o Capitão América e ser plenamente Steve Rogers? Afinal, quem é Steve Rogers? Fica o questionamento.

Thor: da glória à queda

Que o primeiro filme do Thor foi uma bagunça, todos sabemos. O diretor, Kenneth Branagh, é conhecido por bons filmes, como O Assassinato No Expresso Do Oriente e Frankenstein de Mary Shelley (ok, ele tem bombas no currículo, como Artemis Fowl, mas atire a primeira pedra quem nunca tomou uma decisão errada), e você vê o seu óbvio esforço em fazer com que Thor (2011) funcione. Com o mesmo tom solene e shakesperiano das HQs, o filme apresenta o personagem da melhor forma possível: um guerreiro poderoso, com amigos e uma amiga inestimáveis, a promessa de um trono, e muito, muito ego. Odin pretende que seu sucessor seja um homem sensato, justo e bom, e quando Thor acaba gerando conflito com um povo que, teoricamente, estava em paz com eles, percebe que, talvez, tenha errado ao pensar que o primogênito estivesse pronto.

Por conta da sua arrogância, Thor é banido para a Terra junto com Mjönir, sua fiel arma de batalha. Porém, o deus do trovão não estava esperando que, além disso, seu pai tivesse retirado todo o seu poder divino e posto um encantamento no martelo: somente os dignos podem empunhá-lo. O personagem é explorado, em partes, como alguém não tão inteligente e com uma vivência pautada na força bruta (ainda que sem poderes, um asgardiano continua mais forte que um humano), para depois ir mostrando que Thor tem sim um coração bom, só não estava no lugar certo, pois cresceu como um príncipe mimado. Com o conflito final, o protagonista finalmente entende sobre o que se tratou todas as suas lutas como guerreiro: não era sobre honra e glória, e sim sobre sacrifício, amor, cuidar das pessoas, protegê-la dos perigos, ajudar a manter o equilíbrio da paz etc etc. E é assim que Thor se torna digno.

Apesar do filme ser considerado ruim, ele não é tão mau quanto falam. Claro, mil erros, mas porque houve uma experimentação de estilo que não deu muito bom. Chris Hemswoth não nasceu para ser um personagem clássico, com palavreado rebuscado e sutilezas. O ator tem um timing cômico perfeito, sabe como atuar de maneira leve, como ser poderoso quando precisa, mas teatral? Nope. Cancela. E assim veio Os Vingadores (2012), trazendo mais do personagem. Seu desenvolvimento na trama não é grande, embora o conflito o envolva por ser o seu irmão o vilão - digamos assim. Dessa vez, o viés cômico do ator ganha mais destaque, evoluindo seu carisma e ganhando o coração das pessoas, principalmente em suas interações.

Mas sua história se mantém presa aos conflitos com Loki e o fato do irmão ser narcisista (para entenderem mais sobre isso, cliquem AQUI). Ou seja, até então, o deus do trovão necessita do deus da trapaça para que sua história ande. É assim novamente em Thor: O mundo sombrio (2013), que pareceu outra experimentação. O novo filme é mais soturno, em tons mais escuros, com uma trama mais grave e imediatista, que necessita de ação constante. Não que ele seja ruim, eu, particularmente, gostei. É interessante ver um novo tipo de interação entre os irmãos também, que demonstra com mais ênfase como a dinâmica entre eles funciona. Mas a trama não puxa muito do personagem, e não tem muito espaço para o luto por Frigga, que fica muito em segundo plano.

Depois temos Vingadores: A Era de Ultron, e o início é magnífico, principalmente com a brincadeira deles tentando segurar o Mjönir. Mas o personagem é afastado durante um tempo da trama principal, e, assim, seu papel não tem tanta relevância. Então temos o maior acerto da Marvel: chamaram Taika Watiti para dirigir o terceiro filme do deus do trovão e AI SIM temos um arco evolutivo não só incrivelmente bem construído, como o uso pleno das habilidades artísticas de Chris Hemsworth.

Thor momentos antes de começar uma longa jornada. Reprodução: Marvel

Os comentários que sempre ouço sobre Thor: Ragnarok são de que o filme é um dos piores, tem piada demais, não tem um pingo de seriedade. E, desculpem dizer isso, mas... Você comem cocô? O título já até entrega sobre qual o plot, que é o Ragnarok, que, eu não sei se vocês sabem, mas é basicamente o apocalipse nórdico. Após a sua visão no filme Vingadores: A Era de Ultron, Thor havia ido atrás de entender direitinho tudo e percebeu que uma catástrofe iria acontecer, optando por impedir que acontecesse. Já em casa, para a sua grata surpresa, seu irmão não só está vivo como seu pai está desaparecido.

E temos o primeiro baque: Odin morre, deixando o trono de Asgard para seu filho primogênito. O problema é que, dois segundos depois, ele descobre que, na verdade, o primeiro filho não era Thor e sim Hela, a deusa da morte. Em seguida, o deus do trovão tem outro baque quando a irmã quebra o Mjönir como se fosse nada. Um triple kill de cara. Sem ter nem tempo de processar o que estava acontecendo, Thor vai parar em um outro mundo, no qual é escravizado e usado como uma espécie de gladiador. Em sua mente, ele só tem um objetivo, que é fugir dali e voltar para Asgard, para impedir Hela - que obviamente é uma sociopata de primeira linha, mais narcisista do que Loki. Assim, temos um protagonista que sofreu vários baques seguidos, mas está no meio de situações urgentes que o impedem de parar para absorver os fatos - quem aí se identifica com o mantra de "continue a nadar"?

Fugir foi só o primeiro passo, pois, chegando na sua terra natal, tem que resgatar o seu povo e confrontar a sua irmã, que, até então, é mais poderosa do que ele. No fim das contas, Thor descobre algo sobre si mesmo que desconhecia e uma força enorme dentro de si, que o faz não só derrotar Hela, como tomar decisões difíceis, algo que ele estava sempre evitando fazer. O filme termina com o Ragnarok acontecendo. Agora, como rei asgardiano, Thor precisa descobrir como fazer aquilo dar certo, pois se dá conta de que, bem, talvez, não quisesse governar. Mas isso não é uma opção. Porém, paz não é uma opção e o próximo passo de sua jornada foi Thanos assassinando metade do seu povo e seu irmão.

Chris fez um excelente trabalho dando um ar de dramédia ao personagem quando vai contar a sua história e é aqui que pega: só porque ele nos faz rir, não quer dizer que não seja algo pesado. Na sua luta contra Thanos na Terra, ele perde pela segunda vez. E, no terceiro confronto com o seu nêmesis, a satisfação de conseguir eliminá-lo não vem, pois nada muda. Thor perdeu praticamente tudo, e sua única esperança, as joias do infinito não existem mais. A culpa vem e a vergonha o consome. E, de novo, as pessoas riram em Ultimato ao vê-lo gordo, bêbado e gritando com pivetes na internet. Mas o grandioso deus do trovão na verdade estava mergulhado até o último fio de cabelo em uma doença comum, mas amplamente ignorada por todos: depressão.

Então, em retrospectiva, temos o mais altivo dos super-heróis, pois Thor é um deus, criado para ser o mais forte dos guerreiros e liderar uma nação inteira de pessoas poderosas. Isso o torna tolo e impulsivo, querendo resolver as coisas na base da porrada e, como dito anteriormente, sem usar sua massa encefálica. Perder seus poderes foi apenas a ponta do iceberg, principalmente ao ter que desconstruir boa parte do seu orgulho para poder se tornar digno, percebendo que ele não era tão superior a tudo quanto achava que era. Seu arco parece focar em humanizar um deus, torná-lo benevolente, bondoso, humilde e, assim, tornar-se o herdeiro do trono que seu pai tanto queria que ele fosse.

Então somos surpreendidos com uma virada brusca para algo mais intenso, em que Thor se vê confrontado com a ideia mais profunda e difícil que podemos esbarrar: na descoberta do eu. Até então, ele seguia um roteiro traçado pelo pai, mas, com a chegada da irmã e do Ragnarok, o deus do trovão questiona esse futuro, e não só isso, como tem que engolir tudo o que aconteceu até aquele ponto para ter que liderar o que sobrou do seu povo a uma nova casa. Com a chacina de Thanos, o assassinato do seu irmão, se enfiar em mais uma guerra para salvar a Terra e "falhar" em matar o Thanos, as coisas começam a cair em cima do personagem. Quando se vinga do seu algoz, não há satisfação, felicidade, nada. Thor perdeu tudo e mais um pouco.

Em Ultimato, sua aparição é precisa. Quem pensa que ele está mergulhado em autopiedade esqueceu de tudo pelo qual ele passou. Thor nunca teve tempo de processar a morte dos pais, do irmão, de metade do seu povo, a destruição do seu lar, o fato de ter se tornado escravo, participado de diversas guerras e, no fim, nem mesmo saber quem ele é. Sim, meus caros e minhas caras, temos mais um personagem que desenvolve transtornos mentais, dessa vez, depressão. E, se prestar dois segundos de atenção, mesmo após terem vencido, de fato, Thanos no final das contas, Thor não é o mesmo. Sua expressão é carregada, sua voz é arrastada, é como se ele carregasse um peso. Ele ainda é engraçado, com seu jeito de evitar as coisas fazendo piadas, mas essa é só a máscara que ele vestiu para poder sobreviver.

E aí? Ainda acham que os filmes da Marvel são rasos? Pois espere mais um pouco que vai ter parte 2!

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