O documentário Sequestro: Elizabeth Smart, dirigido por Benedict Sanderson e lançado pela Netflix em 2026, retorna a um dos casos de sequestro infantil mais acompanhados pela mídia norte-americana no início dos anos 2000. Em meio a uma era marcada pela ascensão do jornalismo sensacionalista e da cobertura 24 horas, histórias como as de Elizabeth Smart, Jaycee Dugard e Polly Klaas ocuparam espaço central no noticiário, enquanto inúmeros desaparecimentos de pessoas fora desse perfil recebiam pouca atenção — fenômeno que ajudou a consolidar o debate sobre a chamada “Síndrome da Mulher Branca Desaparecida”.
Mesmo sem apresentar revelações inéditas, já que os responsáveis pelo crime foram julgados há anos, o novo documentário da Netflix se sustenta como um relato sólido e bem estruturado. A produção reúne entrevistas atuais com Elizabeth Smart, sua irmã Mary Katherine — a única testemunha do sequestro — e o pai, Ed Smart, além de jornalistas e investigadores envolvidos no caso. O resultado é um panorama detalhado que contextualiza o crime, a investigação e os impactos duradouros na vida da família.
Sanderson adota uma abordagem clássica do true crime televisivo. O uso frequente de closes fechados busca intensificar o peso emocional dos depoimentos, enquanto a trilha sonora sublinha momentos-chave da narrativa. Há também a presença de materiais de arquivo, como ligações para o serviço de emergência, imagens de noticiários e registros policiais, além de dramatizações pontuais que reconstituem situações centrais da história. Embora esses recursos não sejam sutis, eles seguem um padrão já familiar ao público do gênero.
O documentário começa retomando os fatos essenciais: em junho de 2002, Elizabeth Smart, então com 14 anos, foi levada de seu quarto durante a madrugada. Sua irmã mais nova, Mary Katherine, presenciou o crime e descreve com precisão o choque e o medo daquele momento. A família, integrante ativa da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, vivia em um bairro residencial de Salt Lake City, e o contraste entre a rotina doméstica e a violência do ocorrido é um dos eixos centrais do relato.
A investigação inicial, acompanhada de intensa exposição midiática e milhares de denúncias, voltou-se inclusive contra o próprio pai de Elizabeth, reflexo de protocolos comuns em casos desse tipo. A produção dedica espaço para mostrar como suspeitas equivocadas e julgamentos precipitados agravaram o sofrimento da família, até que novas evidências redirecionaram o foco das autoridades.

Crítica de Sequestro: Elizabeth Smart | Vale à pena assistir ao documentário na Netflix?
Em determinado ponto, a narrativa muda de perspectiva e passa a acompanhar os acontecimentos sob o ponto de vista de Elizabeth. Sem recorrer a descrições gráficas, o documentário aborda o período em que ela permaneceu em cativeiro, destacando o isolamento, o medo constante e as tentativas frustradas de pedir ajuda. Esse trecho é conduzido com cuidado, priorizando o impacto psicológico da experiência e a resiliência da vítima.
Hoje, Elizabeth Smart é uma ativista reconhecida na defesa de sobreviventes de violência sexual. O filme encerra sua trajetória enfatizando essa transformação e dando espaço para que ela reflita sobre superação, culpa e reconstrução pessoal. Sequestro: Elizabeth Smart não reinventa o gênero, mas cumpre seu papel ao oferecer um retrato respeitoso, informativo e consistente de um caso que marcou uma geração.