A nova Sandokan, série de oito episódios da Netflix coproduzida entre França e Itália, chega ao catálogo com a missão de atualizar um dos personagens mais emblemáticos da literatura de aventura europeia. Inspirada na obra de Emilio Salgari, a produção não apenas revisita o mito do pirata da Malásia, como tenta reposicioná-lo para um público global, combinando ambição estética, escala internacional e uma leitura mais atenta ao contexto histórico.
No centro desse projeto está Can Yaman, cuja escalação como Sandokan funciona como um claro divisor de águas. O ator turco, já conhecido pelo sucesso em novelas de alcance internacional, assume aqui um papel que exige presença física, carisma e liderança. A série aposta em gestos amplos e em uma postura quase teatral para construir um protagonista que inspira respeito sem perder humanidade. Em vários momentos, Yaman consegue equilibrar autoridade e vulnerabilidade, algo essencial para que o personagem não se torne apenas uma figura idealizada da aventura clássica.
A produção também se destaca por seu cuidado técnico. A fotografia valoriza cenários naturais e recriações de época com precisão, enquanto o uso de CGI é integrado de forma discreta às sequências marítimas e às cenas de ação, ampliando a escala da narrativa sem comprometer a imersão. Trata-se de um raro exemplo de série europeia que dialoga diretamente com padrões visuais associados a grandes produções televisivas internacionais.
Narrativamente, Sandokan adota um ritmo que privilegia a construção de mundo e as relações entre personagens. A dinâmica entre o protagonista e sua tripulação reforça a ideia de diversidade cultural como elemento central da história, refletindo tanto o espírito aventureiro da obra original quanto uma sensibilidade contemporânea. Algumas sequências de ação apresentam coreografias mais rígidas, especialmente nas cenas coletivas, o que pode soar excessivamente calculado em determinados momentos, mas essa escolha parece alinhada à proposta clássica do gênero capa e espada.
No núcleo dramático, Alanah Bloor se destaca como Marianne. Sua interpretação evita exageros e aposta em sutileza, oferecendo uma personagem que funciona como ponte entre mundos distintos. O elenco britânico que a acompanha mantém um padrão consistente, com destaque para Ed Westwick, cuja presença adiciona tensão e peso às relações de poder que atravessam a trama. Já personagens secundários, como a empregada que conecta universos sociais opostos, ganham relevância ao impulsionar conflitos decisivos, reforçando o aspecto humano da narrativa.

A direção, embora eficiente na condução geral, apresenta pequenas oscilações, sobretudo no início da série, quando algumas cenas parecem menos dinâmicas do que poderiam. Ainda assim, a progressão dos episódios demonstra maior segurança, especialmente no uso do suspense e na construção de ganchos narrativos.
Ao optar por um tratamento mais atento a questões históricas e étnicas, Sandokan se distancia parcialmente da liberdade imaginativa de Salgari, mas sem sufocar o espírito aventureiro que consagrou o personagem. O resultado é uma série que respeita a tradição, ao mesmo tempo em que busca relevância no mercado global de streaming.
Crítica: vale à pena assistir a série Sandokan na Netflix?
Com presença frequente entre as 10 séries mais assistidas da Netflix, Sandokan se consolida como uma aposta bem-sucedida, capaz de atrair tanto fãs da literatura original quanto novos espectadores em busca de uma narrativa de aventura clássica repaginada para o século XXI.
