A série espanhola Salvador, recém-adicionada ao catálogo da Netflix, aposta em um thriller urbano que mistura drama familiar, violência política e tensões sociais contemporâneas. Criada por Aitor Gabilondo, a produção usa um evento esportivo como pano de fundo para apresentar uma história que, aos poucos, se revela mais íntima do que aparenta à primeira vista.
O que acontece na série espanhola
A abertura da série situa o espectador em Madri, enquanto comentaristas de TV analisam uma partida considerada de alto risco entre Real Madrid e Olympique de Marselha. O clima de alerta não é gratuito: autoridades temem confrontos entre torcidas organizadas, especialmente envolvendo um grupo neonazista local que se autodenomina Almas Brancas. Esse contexto estabelece o cenário de tensão que irá atravessar todo o episódio inicial.
É nesse ambiente que conhecemos Salvador Aguirre (Luis Tosar), um ex-médico que hoje trabalha como motorista de ambulância. Marcado por um passado de alcoolismo e vício em jogos de azar, Salvador tenta manter a sobriedade enquanto lida com as consequências de suas escolhas. Em um grupo de apoio, ele admite que perdeu o casamento, a carreira e, sobretudo, o vínculo com a filha, Milena (Candela Arestegui), com quem praticamente não mantém contato. O sentimento de culpa é um dos motores centrais da narrativa.
Ainda no caminho para o trabalho, Salvador presencia um ataque de membros das Almas Brancas dentro de um ônibus, um episódio que antecipa o nível de violência que tomará as ruas naquela noite. Já em serviço, ao lado da parceira Marjane (Fariba Sheikhan) e do enfermeiro novato Toni (Guillermo Las Heras), ele passa a atender ocorrências relacionadas aos confrontos entre hooligans. Um policial gravemente ferido por um coquetel Molotov e, depois, um torcedor árabe do Olympique de Marselha espancado nos fundos de um bar revelam como o ódio racial se manifesta de forma direta.
É nesse mesmo bar que Salvador encontra Milena trabalhando, descoberta que muda completamente o rumo da história. O reencontro é marcado por ressentimento: ela o acusa de nunca ter sido um pai presente, deixando claro que a distância entre os dois vai além dos anos sem contato. Pouco depois, durante um tumulto generalizado próximo ao estádio, Milena acaba envolvida em um episódio grave, que coloca Salvador diante das consequências mais extremas de sua ausência.
Narrativamente, Salvador levanta algumas questões já no primeiro episódio. A ligação entre a partida de futebol e a escalada da violência racial poderia ser mais contextualizada, especialmente para o público internacional. Fica implícito que há uma rivalidade ideológica e étnica entre os grupos, mas a série opta por avançar rapidamente para o caos, sem explicar em profundidade como essa tensão se consolidou ou por que a resposta das autoridades parece insuficiente.

Outro ponto em aberto é o caminho que a temporada seguirá. A trama sugere duas possibilidades: explorar o passado de Salvador e Milena por meio de flashbacks ou concentrar-se inteiramente no presente, acompanhando o pai em sua tentativa tardia de entender como a filha se aproximou de um grupo extremista. A escolha narrativa fará diferença no impacto emocional da série.
O maior trunfo de Salvador está na atuação de Luis Tosar, que constrói um personagem marcado por culpa, frustração e urgência. Sua presença sustenta o drama mesmo quando o roteiro deixa lacunas. A série pode lembrar outras produções centradas na relação entre pais e filhos em conflito, mas encontra identidade própria ao inserir essa dinâmica em um contexto social explosivo.
Crítica: vale à pena assistir Salvador na Netflix?
Sim. Apesar das dúvidas sobre o desenvolvimento da narrativa, Salvador apresenta um ponto de partida consistente, uma temática relevante e uma performance central que justifica acompanhar os próximos episódios.