Longa argentino transforma o luto em uma fábula sobre conexão e memória na Netflix
A Netflix adicionou ao catálogo um dos filmes argentinos mais comentados dos últimos meses. Dirigido por Juan Cabral, que também assina o roteiro ao lado de Pablo Minces, Risa e o Telefone do Vento mistura drama familiar, fantasia e realismo mágico para contar uma história sobre perda, memória e a necessidade humana de encontrar respostas após a morte. Leia a nossa crítica.
Ambientado na cidade de Ushuaia, no extremo sul da Argentina, o longa acompanha Risa, uma menina de 10 anos interpretada por Elena Romero. Após perder o pai em um incêndio, ela vive apenas com a mãe, Sara (Cazzu), enquanto tenta lidar com a ausência que continua presente em sua rotina. Durante as férias escolares, a garota descobre uma antiga cabine telefônica que supostamente permite contato com pessoas falecidas, transformando sua vida e a de toda a comunidade ao redor.
O ponto de partida poderia facilmente conduzir a uma narrativa infantil convencional. No entanto, Cabral opta por um caminho diferente. O filme começa apoiado em uma abordagem realista, apresentando personagens marcados por ausências e frustrações, antes de introduzir gradualmente elementos fantásticos. A transição entre esses dois universos ocorre de forma delicada, sem que a fantasia se imponha sobre os conflitos emocionais centrais.
Grande parte da força dramática da obra está na relação entre Risa e Esteban, personagem de Diego Peretti. Inicialmente apresentado como um vizinho solitário e distante, ele acaba desenvolvendo uma conexão inesperada com a menina. O vínculo entre os dois se torna um dos pilares da narrativa, oferecendo ao filme seus momentos mais humanos e emocionalmente relevantes.
Outro elemento importante é a forma como o roteiro utiliza a cabine telefônica como metáfora. Mais do que um portal para o além, o objeto funciona como um espaço de elaboração do luto. À medida que Risa passa a transmitir mensagens entre vivos e mortos, o filme explora a necessidade de encontrar encerramento para relações interrompidas. A fantasia surge menos como um mecanismo sobrenatural e mais como uma representação do desejo de seguir em frente.
Visualmente, Cabral demonstra a experiência adquirida ao longo de sua carreira dirigindo comerciais e videoclipes. Algumas sequências revelam um cuidado estético evidente, aproveitando as paisagens geladas da Patagônia para construir uma atmosfera de isolamento e contemplação. Em determinados momentos, porém, esse refinamento visual parece chamar mais atenção para si do que para a história, criando um desequilíbrio pontual entre forma e conteúdo.

A trilha sonora também exerce papel fundamental. Com seis canções da banda argentina Babasónicos integradas à narrativa, o filme estabelece uma identidade própria e reforça a dimensão emocional de sua jornada.
Crítica do filme: vale à pena assistir Risa e o Telefone do Vento na Netflix?
Embora apresente algumas irregularidades narrativas e nem sempre consiga harmonizar todos os seus personagens e subtramas, Risa e o Telefone do Vento encontra força na sinceridade de sua proposta. Ao combinar realismo mágico, drama familiar e fantasia, Juan Cabral constrói uma obra que discute a dor da perda sem recorrer ao sentimentalismo excessivo.
O resultado é um filme que utiliza o impossível para falar sobre sentimentos universais, encontrando na imaginação uma forma de refletir sobre aquilo que permanece mesmo depois das despedidas.