Quem Matou JonBenet? (2016) - Crítica do Filme true crime do Lifetime inspirado numa História Real Quem Matou JonBenet? (2016) - Crítica do Filme true crime do Lifetime inspirado numa História Real

Quem Matou JonBenet? (2016) | Crítica do Filme | Lifetime

Exibido pelo Lifetime Movies e dirigido por Jason Lapeyre, Quem Matou JonBenet? integra um pacote de produções lançadas pela emissora em 2016 para revisitar um dos crimes reais mais conhecidos dos Estados Unidos: o assassinato de JonBenet Ramsey, ocorrido em 1996, no Colorado. Lançado ao lado de especiais documentais e debates televisivos, o telefilme aposta na reconstrução dramática do caso, mas revela mais interesse em provocar impacto emocional do que em oferecer análise consistente. Leia a nossa crítica:

A história real sobre JonBenet Ramsay contada no filme do Lifetime

Desde o início, o longa deixa clara sua estratégia narrativa. A reconstituição do crime é acompanhada por escolhas estéticas típicas do padrão Lifetime: trilha sonora insistente, imagens desfocadas, uso recorrente de vídeos caseiros e diálogos que sublinham o drama a cada cena. O filme revisita momentos centrais da investigação e ajuda o espectador a compreender por que o caso se tornou tão confuso, especialmente ao mostrar como a cena foi comprometida ainda nas primeiras horas, com a circulação de familiares e amigos pela casa da família Ramsey.

A produção não esconde que flerta com a suspeita lançada sobre os pais de JonBenet, John e Patsy Ramsey, interpretados por Michel Gill e Julia Campbell. Ainda assim, o roteiro evita assumir uma posição definitiva. A pergunta do título permanece sem resposta, não por prudência jornalística, mas porque o filme prefere se deter nos elementos mais mórbidos e controversos do caso, sem avançar para uma reflexão mais ampla.

Quem Matou JonBenet (2016) - Crítica do Filme true crime do Lifetime inspirado numa História Real

A decisão criativa mais questionável surge na escolha da narração. Quem Matou JonBenet? é conduzido pela voz da própria criança, apresentada como uma espécie de consciência pós-morte que guia o espectador pelos acontecimentos. Dublada por Phoebe Lawrenson, essa JonBenet etérea comenta cenas, apresenta personagens e compartilha pensamentos com um tom de inocência calculada. O recurso, longe de acrescentar profundidade, soa como uma tentativa deliberada de manipular a emoção do público, tornando a experiência desconfortável.

A narrativa se torna ainda mais confusa ao dividir o protagonismo entre essa voz infantil e o detetive Steve Thomas, figura real da investigação que, anos depois, publicou um livro defendendo a tese de que Patsy Ramsey seria responsável pelo crime. No filme, Thomas, vivido por Eion Bailey, é retratado como um investigador obstinado, isolado e movido por um senso pessoal de justiça. A construção do personagem beira o maniqueísmo, ignorando controvérsias em torno de sua atuação no caso.

Curiosamente, a própria JonBenet-narradora demonstra saber quem é Steve Thomas e deposita nele a esperança de uma solução, o que reforça o tom fantasioso da proposta. O encontro simbólico entre detetive e vítima, no desfecho, busca encerrar a história com uma sensação de catarse, mas acaba evidenciando o quanto o filme confunde drama ficcional com um caso real ainda cercado de lacunas.

Em um momento em que produções de true crime se esforçam para contextualizar investigações antigas, discutir o papel da mídia e revisar erros institucionais, Quem Matou JonBenet? parece preso a uma abordagem superficial. O filme pouco explora o impacto do circo midiático da época ou o contexto social da família Ramsey em Boulder. Mesmo com duas décadas de distância, a obra não demonstra ganho de perspectiva.

Crítica: Quem Matou JonBenet? é um bom filme do Lifetime?

Há um certo apelo kitsch, sobretudo na interpretação exagerada de Julia Campbell como Patsy, mas isso não compensa a sensação de exploração constante. O assassinato de JonBenet Ramsey sempre esteve cercado de sensacionalismo, e o telefilme da Lifetime acaba reproduzindo esse mesmo impulso. Em vez de questionar as narrativas que transformaram o caso em espetáculo, a produção se soma a elas, utilizando a tragédia como matéria-prima emocional e reafirmando o interesse da emissora em manter viva uma história que nunca conseguiu — e talvez nunca consiga — encontrar um desfecho definitivo.