Queer (2024) - Crítica, fatos e curiosidades do filme de Luca Guadagnino com Daniel Craig Queer (2024) - Crítica, fatos e curiosidades do filme de Luca Guadagnino com Daniel Craig

Queer (2024) | Crítica do Filme de Luca Guadagnino

A chegada de “Queer” (2024) ao catálogo da Netflix confirma Luca Guadagnino como um cineasta interessado em tensionar formas, épocas e expectativas. Dirigido pelo italiano e estrelado por Daniel Craig, o filme adapta o romance homônimo de William S. Burroughs e aposta em uma encenação que rejeita naturalismo e linearidade para explorar desejo, dependência e autoengano. O resultado é uma obra deliberadamente deslocada, que parece existir fora do tempo histórico que retrata e também fora das convenções do cinema contemporâneo. Confira a nossa crítica.

Ambientado na Cidade do México dos anos 1950, “Queer” acompanha William Lee, um escritor americano expatriado, gay e dependente químico, que vive entre bares, drogas e encontros ocasionais. Craig interpreta Lee como um homem consciente de sua decadência, mas incapaz de interrompê-la. O personagem observa o próprio corpo envelhecer enquanto tenta reafirmar sua relevância por meio do desejo alheio, especialmente na relação ambígua que estabelece com Eugene Allerton (Drew Starkey), um jovem americano que oscila entre aproximação e distanciamento.

Desde os primeiros minutos, Guadagnino deixa claro que não busca reconstrução histórica fiel. O filme mistura cenários artificiais, projeções traseiras, miniaturas e escolhas musicais anacrônicas, criando um ambiente que lembra produções autorais dos anos 1980. Essa estética reforça a ideia de que “Queer” é uma história deslocada, escrita nos anos 1950, publicada décadas depois e agora reinterpretada por um cineasta do século XXI. O anacronismo, portanto, não é falha, mas conceito.

O roteiro de Justin Kuritzkes, que também colaborou com Guadagnino em Challengers, abandona a estrutura tradicional de enredo. Em vez de progressão clara, o filme se organiza como uma sucessão de episódios, centrados mais na percepção interna de Lee do que em ações concretas. Grande parte da narrativa gira em torno da tentativa do protagonista de compreender se Eugene corresponde ao seu desejo e até que ponto esse interesse é real ou apenas projetado. O jogo de olhares, silêncios e aproximações frustradas ocupa o espaço onde normalmente estaria o conflito clássico.

Quando a relação entre os dois avança, “Queer” passa a discutir dependência em múltiplos níveis. Lee se revela tão preso aos próprios impulsos quanto aos entorpecentes que consome. Eugene, por sua vez, surge como alguém consciente do poder que exerce, mas incapaz de lidar com as implicações dessa dinâmica. O filme evita julgamentos diretos e aposta na observação prolongada, mesmo quando isso gera desconforto.

Na segunda metade, a narrativa abandona qualquer resquício de contenção e mergulha no surrealismo, levando os personagens a uma jornada pela selva em busca de uma substância experimental associada à telepatia. Esse trecho aproxima “Queer” de um delírio consciente, no qual forma e conteúdo se confundem. A participação de Leslie Manville, como uma química armada e instável, adiciona uma camada de estranhamento que reforça a sensação de colapso.

Queer (2024) - Crítica, fatos e curiosidades do filme de Luca Guadagnino com Daniel Craig

Crítica do filme: vale à pena assistir Queer na Netflix?

A atuação de Daniel Craig é central para sustentar essa proposta. Distante da imagem associada a James Bond, o ator constrói um personagem que performa a própria ruína, alternando autoconsciência e negação. Drew Starkey acompanha com precisão, criando um Eugene contido, legível nos gestos e expressões, mesmo quando o texto silencia.

“Queer” não busca moderação. O excesso é parte do projeto estético e narrativo de Guadagnino, que aposta em imagens, ritmos e escolhas que exigem envolvimento ativo do espectador. Ao chegar à Netflix, o filme se destaca como uma produção que desafia expectativas do cinema estrelado e reafirma o diretor como um autor disposto a provocar, mesmo que isso signifique afastar parte do público.