PRIMAL - 3ª temporada | Crítica da série animada | HBO Max 2026 PRIMAL - 3ª temporada | Crítica da série animada | HBO Max 2026

PRIMAL – 3ª temporada | Crítica da série animada | HBO Max 2026

Após um hiato de três anos e um final que parecia definitivo, “Primal” retorna com sua aguardada terceira temporada, confirmando-se não apenas como uma das séries mais originais da animação adulta, mas solidificando-se como a magnum opus do visionário Genndy Tartakovsky (que você deve conhecer por “Samurai Jack” e “O Laboratório de Dexter”).

A nova leva de episódios, que chega no dia 11 de janeiro no catálogo da HBO Max, executa uma reviravolta audaciosa: resgata seu protagonista da morte de forma inventiva, mergulhando em temas sobrenaturais e existenciais, sem trair a essência brutal e poética que cativou o público. O resultado disso tudo é uma temporada mais emocional, expansiva e visualmente deslumbrante.

Para recapitular, a segunda temporada encerra com o sacrifício heroico do homem das cavernas Spear para salvar sua família, deixando sua companheira de aventuras, Fang, e sua família. A expectativa era de que “Primal” se tornasse uma antologia. Tartakovsky, no entanto, surpreende ao continuar a jornada de Spear de uma maneira que não soa regressiva, mas como uma evolução natural e sombria do mito. Ressuscitado como uma criatura sobrenatural com memórias fragmentadas, Spear agora é um “morto-vivo”, forçado a vagar por um mundo hostil em uma busca que mistura “Dante’s Inferno“ com “Shadow of the Colossus“.

Com base nessa premissa, Tartakovsky permite explorar novos patamares narrativos e emocionais com seus personagens. A separação física entre Spear e Fang – cada um cuidando de suas respectivas famílias – aprofunda temas universais sobre paternidade, perda e o instinto de proteger aqueles que ama em um mundo perigoso. Enquanto Fang testemunha a crueldade contra sua espécie, Spear luta para reconquistar sua humanidade e propósito, temendo ter se tornado um monstro. A dinâmica entre Mira, agora uma líder em sua vila, e Fang, ambas mães solo unidas pela dor e pela memória de Spear, é uma das camadas mais ricas da temporada.

O terror, que é algo presente desde o começo da animação, agora é algo muito mais central. A transformação de Spear na narrativa contemplativa e filosófica, questiona os limites entre vida e morte, humanidade e bestialidade. A violência, marca registrada de “Primal”, não deixa a desejar na terceira temporada, com criatividade e impacto, além da ação muito bem animada, com coreografias numa ferocidade quase operática e sequências de body horror que tem uma certa crueza.

Tartakovsky expande o escopo do mundo de “Primal”, introduzindo elementos de fantasia épica e espada e feitiçaria que parecem ter uma inspiração em “Dungeons & Dragons” ou as histórias de Robert E. Howard, mas que se encaixam organicamente no mundo construído. E esse tipo de narrativa, aliado à animação com cenários que lembram pinturas de Frank Frazetta, são capazes de transmitir uma beleza e o terror necessário para uma ambientação que preenche os olhos.

A temporada não é imune a pequenas oscilações de ritmo. Uma seção no meio dos episódios desacelera para reaclimatar o espectador às novas regras sobrenaturais, o que pode parecer um tanto repetitivo para o desenvolvimento de Spear. Contudo, esses momentos são rapidamente compensados pela tensão crescente da metade final, que culmina em um final considerado pelos críticos como “perfeito” e possivelmente o melhor trabalho da carreira de Tartakovsky.

Além de tudo isso, o elenco vocal, liderado por Aaron LaPlante (Spear) e Joel Valentine (Fang), continua excelente na difícil tarefa de transmitir complexidade emocional através de grunhidos e murmúrios – que não demérito algum, por sinal. A trilha sonora de Tyler Bates e Joanne Higginbottom elevam todo o impacto dramático que a temporada apresenta.

Em suma, a terceira temporada de “Primal” é uma obra-prima em evolução. Ela honra o legado das temporadas anteriores – a violência primal, a narrativa visual, a emoção crua – enquanto ousa transcender sua própria premissa, tornando-se uma meditação profunda sobre vida, morte, luto e resiliência. Sem dúvidas, essa é a temporada mais ousada e madura da série. A estreia está marcada para este domingo, dia 11.