Em Preparação para a Próxima Vida (Preparation for the Next Life, 2025), Bing Liu abandona o registro documental que o consagrou em Minding the Gap para construir um drama de ficção atento às fraturas sociais da Nova York contemporânea. Disponível no Prime Video, o filme acompanha o encontro entre duas figuras deslocadas, cujas trajetórias revelam como sobrevivência, afeto e identidade se tornam negociações permanentes em um ambiente hostil. Leia a nossa crítica:
A protagonista é Aishe (Sebiye Behtiyar), uma jovem uigur que vive de forma irregular nos Estados Unidos e trabalha em um restaurante chinês sob condições precárias. O medo constante da deportação, somado às marcas de detenções anteriores, molda cada uma de suas escolhas. Skinner (Fred Hechinger), por sua vez, é um veterano do Exército que retornou de múltiplas missões no Iraque sem conseguir se reintegrar à vida civil. O transtorno de estresse pós-traumático atravessa sua rotina, ainda que ele tente ocultar o sofrimento por trás de uma aparência serena.
O encontro entre Aishe e Skinner não é tratado como um romance convencional. Liu constrói a aproximação a partir de gestos contidos, olhares prolongados e desafios quase infantis que funcionam como testes de resistência física e emocional. Flexões, bebidas e treinos em academias substituem declarações explícitas, revelando uma afinidade baseada na disciplina e no esforço como formas de controle em vidas marcadas pela instabilidade. Pequenas decisões cotidianas, como dividir uma conta ou escolher onde passar a noite, ganham peso diante da fragilidade econômica e emocional que ambos compartilham.
Com o avanço da narrativa, o filme desloca o foco da descoberta para o desgaste. A rotina exaustiva de Aishe no trabalho, explorada por um chefe ciente de sua vulnerabilidade, contrasta com a incapacidade de Skinner de manter um emprego ou estabelecer vínculos duradouros. Isolado em um quarto de porão, o ex-soldado carrega consigo não apenas lembranças da guerra, mas também uma sensação de inutilidade que se manifesta em silêncios prolongados e atitudes erráticas. A relação, antes marcada pela curiosidade e pela promessa, passa a refletir o peso das histórias que cada um traz consigo.
O roteiro, adaptado por Martyna Majok a partir do romance de Atticus Lish, preserva um olhar atento às dinâmicas urbanas que empurram indivíduos à invisibilidade. Bing Liu observa seus personagens com paciência, apostando em uma encenação naturalista que privilegia expressões faciais e movimentos mínimos. A câmera de Ante Cheng acompanha essa proposta, registrando a cidade como um espaço vasto e indiferente, enquanto a trilha de Emile Mosseri reforça o tom introspectivo sem recorrer ao sentimentalismo.

As atuações são centrais para a força do filme. Sebiye Behtiyar constrói Aishe a partir de um equilíbrio entre pragmatismo e desejo, deixando evidente o conflito entre o que a personagem quer e o que precisa para continuar existindo naquele contexto. Fred Hechinger oferece uma composição contida, na qual o trauma de Skinner se manifesta de forma fragmentada, evitando explicações fáceis ou explosões dramáticas.
Crítica: vale à pena assistir Preparação para a Próxima Vida no Prime Video?
Na segunda metade, Preparação para a Próxima Vida desacelera e encara de frente as limitações impostas às escolhas de seus protagonistas. Sem oferecer soluções reconfortantes, o filme se consolida como uma reflexão sobre o custo de construir uma vida em meio à exclusão, examinando como o amor, longe de ser redentor, pode também expor feridas difíceis de sustentar.