A 2ª temporada de Por Trás da Névoa (Kohrra) já está disponível na Netflix Brasil e retorna ao Punjab indiano com um novo caso de assassinato, novos personagens centrais e a proposta de aprofundar o olhar social que marcou o primeiro ano da série. Criada por Sudip Sharma, Gunjit Chopra e Diggi Sisodia, a produção aposta novamente no gênero policial como ponto de partida para discutir estruturas culturais, relações de poder e violência de gênero, agora sob uma perspectiva renovada. Leia a nossa crítica.
A trama se inicia com uma cena simbólica: durante uma procissão religiosa sikh ao amanhecer, uma idosa encontra um corpo no estábulo de uma grande propriedade. A vítima é Preet, mulher que havia retornado à casa dos pais após se separar do marido e que tentava reconstruir a vida. O assassinato rapidamente revela um círculo de suspeitos que vai além do óbvio, envolvendo familiares, relacionamentos amorosos e conflitos mal resolvidos.
O principal foco narrativo recai sobre a investigação conduzida pela inspetora Dhanwant Kaur, interpretada por Mona Singh, que se junta ao subinspetor Amarpal Garundi (Barun Sobti), personagem remanescente da primeira temporada. A dinâmica entre os dois é um dos pontos centrais da temporada. Enquanto Garundi mantém métodos impulsivos e pouco ortodoxos, Kaur opera com controle emocional e rigor profissional. Essa diferença não se limita ao trabalho policial, mas se estende às suas vidas pessoais, criando atritos constantes.
A personagem de Mona Singh funciona como um eixo dramático importante. Inserida em um ambiente majoritariamente masculino, Kaur enfrenta resistências institucionais ao mesmo tempo em que lida com questões íntimas, como um casamento instável e o processo de fertilização in vitro. A série evita transformar esses elementos em subtramas isoladas; ao contrário, eles dialogam diretamente com o tema central da temporada: a forma como o patriarcado molda silêncios, escolhas e violências.
Assim como na primeira temporada, Por Trás da Névoa utiliza o crime como ferramenta para expor uma “névoa social” — conceito que dá nome à série — que encobre abusos, desigualdades e conivências. Se antes o foco estava na homofobia e nas estruturas familiares tradicionais, agora a narrativa se concentra mais diretamente na violência contra a mulher e na normalização desse ciclo dentro de comunidades aparentemente coesas.
O elenco de apoio também contribui para essa construção. Priyanka Charan, como Charu, amiga de infância da vítima, aparece em poucas cenas, mas carrega um peso dramático relevante ao representar a culpa e a impotência diante de um sistema que desencoraja mulheres a falar. Já Barun Sobti reafirma a força de Garundi como um policial eficiente, porém preso a contradições pessoais que a série não ignora.

Crítica: vale à pena maratonar a 2ª Temporada de Por Trás da Névoa na Netflix?
Com seis episódios, a segunda temporada mantém um ritmo controlado, sem alongar excessivamente a investigação. A estrutura quase antológica permite que novos espectadores acompanhem a história sem a necessidade de ter assistido ao primeiro ano, ainda que pequenos ecos do passado estejam presentes.
A 2ª temporada de Por Trás da Névoa amplia o universo da série ao mesmo tempo em que preserva sua identidade. Ao combinar mistério policial, comentário social e personagens bem delineados, a produção reafirma seu espaço entre os dramas criminais mais consistentes do catálogo da Netflix.