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Pentiment

Os jogos, além de muita coisa, possuem o poder de nos transportar para épocas e mundos diferentes através da imersão – que pode vir de diversas formas -, sendo uma das maneiras de nos divertir, de fazer com que sintamos que estamos em algum outro lugar, ou que somos outra pessoa. Pentiment, novo jogo da Obsidian e lançado pela Microsoft, nos transporta para uma vila dominada por uma abadia no século XVI, na região da Bavária. Através de uma pesquisa extensa e personagens cativantes, vamos descobrir os segredos dessa cidade enquanto conhecemos mais dos seus costumes.

No jogo, você é Andreas Maler, um artista que está trabalhando para a Abadia de Kiersau, na cidade de Tassing. De repente, um assassinato misterioso acontece e, para provar que seu amigo é inocente, Andreas terá que escavar os mistérios e as fofocas da cidade. Mas, esse é só o primeiro ato do jogo, que se estende por um período de 25 anos, enquanto o jogador presencia as mudanças nos personagens e na vila.

De cara, duas coisas me chamaram a atenção quando comecei Pentiment. Primeiro é a arte inspirada nos livros da época. Ao ver as imagens no trailer, não me pareceu tão interessante, mas com poucos minutos de jogo, ela faz total sentido, tomando algumas liberdades artísticas muito interessantes e criativas. No jogo, seu personagem realiza justamente esse tipo de pintura nos livros feitos pelos monges, então esse estilo de arte não só conversa com o jogo, mas também traz um sopro de ar fresco para o mundo dos videogames. A arte, a representação e o ato de sobrescrever, ou pintar por cima (o significado do nome do jogo) são temas recorrentes e muito bem encaixados na narrativa e no visual da obra. Essa ligação perfeita entre direção de arte e narrativa é algo que salta aos olhos, mostrando que foi tudo muito bem pensado.

Outra jogada de mestre do jogo é a forma como ele trata a tipografia, como nenhum outro jogo visto. Cada personagem possui uma fonte diferente no seu texto, dependendo da sua classe social. Monges tem uma letra rebuscada, enquanto as pessoas comuns possuem uma fonte mais simplória e o tipógrafo da cidade possui o efeito de uma prensa de tipos quando vai falar. De cara, você percebe que a pessoa que pensou nisso é uma nerd de tipografia e que isso não é de graça. Como a escrita de livros é um dos temas do jogo, isso se encaixa perfeitamente. Temos até situações em que a fonte da pessoa muda para revelar algo da sua personalidade, é simplesmente genial.

Outro fator que se destaca é a pesquisa que foi feita para trazer a experiência mais realista possível de como era a vida dessas pessoas durante o século XVI. O jogo não tem pena de lançar termos, nomes e personalidades da época no meio dos diálogos, demonstrando como falariam nesse tempo. Felizmente, o inteligente sistema de glossário – em que você pode clicar em algumas palavras destacadas para ter uma breve descrição sobre elas – ajuda muito no entendimento sem tornar o aprendizado, ou a narrativa maçantes. Alguns costumes da época também são acrescentados ao gameplay, como, por exemplo, as horas do dia muito bem divididas entre trabalhos e lanches. Outros aspectos de cultura, vivência e modos das pessoas são muito bem retratados, e o jogador se sente como um pesquisador etnográfico, inserido naquela sociedade enquanto aprende mais sobre ela. A forma como essa pesquisa foi feita é louvável e poucas vezes vi em jogos algo tão cuidadoso sem ficar chato.

Mas o ponto principal do jogo é, claro, sua narrativa. E que narrativa! Apesar de ter muito texto e suas mecânicas se basearem principalmente em ler o que está escrito e tomar decisões, Pentiment consegue trazer uma trama dinâmica e interessante. A cidade é cheia de mistérios e os personagens são bem escritos e cativantes, você se importa com eles, ao mesmo tempo em que sente uma necessidade de descobrir mais coisas. Não vou falar mais da história para não dar spoilers, mas o jogo trata de alguns temas como religião, arrependimento, obrigação, família e gênero de formas bem interessantes e inteligentes.

Em questão de mecânica, o jogo traz poucas inovações, fazendo um belo feijão com arroz já conhecido em jogos narrativos misturados com RPG. Você pode escolher um background para o seu personagem, o que vai abrir algumas opções de linguagem e, em certos momentos, precisará persuadir pessoas e o sucesso vai depender de coisas que falou antes. Para desvendar os mistérios, você geralmente vai ter um tempo limitado para escolher quais ações vai executar e em que ordem. Felizmente, o jogo tem o cuidado de oferecer a mesma informação de diversas formas diferentes, e o jogador pode até não descobrir tudo na primeira vez, mas, geralmente, terá informações o suficiente para avançar na história sem muito ônus.

Pentiment é um dos melhores jogos do ano, caso você não se importe em jogos muito narrativos. A forma como ele te imerge nesse mundo através de sua arte e seu texto é excepcional. Por falar nisso, a trilha sonora é bem limitada. Geralmente, vai ouvir sons ambientes do campo e o som da caneta escrevendo quando os personagens falam. Mas, os momentos em que o jogo decide colocar música são bem impactantes e vão ficar com você por muito tempo. Uma aula de como escrever personagens e um lugar, abordando temas muito pertinentes e muito bem encaixados com suas história e representação. O jogo está disponível no Gamepass.