A chegada de Peaky Blinders: O Homem Imortal à Netflix marca o retorno de um dos personagens mais emblemáticos da TV recente. Criado por Steven Knight e agora sob direção de Tom Harper, o longa funciona como um epílogo cinematográfico para a trajetória de Tommy Shelby, novamente interpretado por Cillian Murphy.
Ambientado anos após o fim da série, o filme encontra Tommy em autoexílio, vivendo em uma propriedade isolada enquanto tenta escrever suas memórias. A proposta narrativa parte de um conflito interno: o protagonista, conhecido por sua habilidade estratégica e frieza, agora enfrenta um inimigo menos tangível — o peso de suas próprias escolhas. O bloqueio criativo que o impede de concluir sua autobiografia funciona como metáfora para um passado que insiste em não ser resolvido.
O retorno à ação ocorre quando figuras familiares reaparecem e o obrigam a confrontar não apenas ameaças externas, mas também o legado que deixou para trás. Em Birmingham, esse legado ganha forma em Duke, interpretado por Barry Keoghan, que assume a liderança dos Peaky Blinders. A condução do personagem revela uma abordagem mais impulsiva e menos estratégica, colocando em evidência um contraste direto com Tommy.
A trama incorpora um elemento histórico ao introduzir uma conspiração envolvendo a circulação de moeda falsa durante a guerra, conectando os personagens a uma ameaça maior. No entanto, ao contrário do que se poderia esperar, o filme evita transformar esse conflito em um confronto simplificado. A presença dos antagonistas serve mais como catalisador do que como foco central, deslocando a narrativa para questões de herança, identidade e consequência.
Nesse sentido, O Homem Imortal mantém a tradição da franquia ao explorar a ambiguidade moral de seus personagens. Tommy Shelby continua sendo retratado como uma figura dividida entre o papel de líder e o de homem marcado por perdas acumuladas. O filme reforça essa dualidade ao posicioná-lo simultaneamente como protagonista e como símbolo de um ciclo de violência que se perpetua — especialmente na relação com Duke.
Do ponto de vista estrutural, o longa apresenta um ritmo irregular. A primeira metade adota um tom mais introspectivo, priorizando momentos de reflexão e revisitação do passado. Já a segunda metade acelera para um formato mais próximo de um drama criminal, com sequências de tensão e confrontos diretos. Essa mudança de abordagem pode causar certa desconexão, mas também evidencia a tentativa de equilibrar o caráter contemplativo com a identidade mais dinâmica da série original.
Visualmente, o filme preserva elementos que ajudaram a consolidar a estética de Peaky Blinders. A ambientação sombria, o uso de trilha sonora contemporânea em contraste com o período histórico e a composição estilizada das cenas continuam presentes. Esse conjunto reforça a identidade da obra, mesmo quando a narrativa opta por caminhos mais contidos.
As atuações são um dos principais pontos de sustentação. Cillian Murphy retoma Tommy Shelby com uma abordagem mais contida, enfatizando o desgaste físico e emocional do personagem. Sua performance se apoia em silêncios e expressões mínimas, transmitindo a dimensão interna do conflito. Barry Keoghan, por sua vez, constrói um Duke que oscila entre a busca por reconhecimento e a tendência à autodestruição, funcionando como espelho e continuidade do pai.

Crítica: vale à pena assistir Peaky Blinders: O Homem Imortal na Netflix?
Apesar de propor reflexões relevantes sobre memória e legado, o filme encontra limitações no tempo de desenvolvimento. Algumas ideias são introduzidas sem o aprofundamento necessário, o que pode dar a impressão de que o material seria mais adequado a uma nova temporada do que a um longa-metragem. Ainda assim, há momentos de forte impacto dramático que reforçam o peso da despedida.
No fim, Peaky Blinders: O Homem Imortal se apresenta como uma conclusão que privilegia o personagem em detrimento da trama. Mais do que encerrar uma história, o filme revisita suas consequências, questionando se é possível escapar do próprio passado. Para os fãs, é uma oportunidade de ver Tommy Shelby sob uma nova perspectiva — não apenas como líder, mas como alguém confrontado pelo que construiu ao longo do caminho.