Recém-adicionado ao catálogo da Netflix, o filme coreano Pavana (Pavane, 2026) chega com a proposta de unir romance juvenil, drama íntimo e uma abordagem contemplativa sobre afeto, ausência e expectativas sociais. Dirigido e roteirizado por Lee Jong-pil, o longa aposta em uma narrativa silenciosa, marcada mais por olhares e gestos do que por conflitos explícitos, o que define tanto seus méritos quanto suas limitações. Leia a nossa crítica.
A história acompanha Gyeong-rok, um jovem de 27 anos que carrega o peso de ser filho de uma celebridade ausente. Sem estabilidade financeira e ainda buscando um lugar no mundo, ele trabalha no estacionamento de uma loja de departamentos enquanto sonha em seguir carreira como dançarino. É nesse ambiente que conhece Yo-han, um observador atento, cuja admiração por Gyeong-rok conduz parte da narrativa, e Mi-jeong, uma funcionária do subsolo da loja, vista pelos colegas como alguém fora dos padrões de beleza e constantemente marginalizada.
Um dos temas centrais de Pavana é a forma como os padrões estéticos moldam relações e percepções na sociedade sul-coreana. Embora essa crítica esteja mais explícita no romance que inspira o filme, a adaptação opta por um caminho mais indireto. A exclusão de Mi-jeong não é discutida frontalmente, mas se manifesta em silêncios, constrangimentos e pequenas interações cotidianas. O problema é que essa sutileza, em vez de aprofundar o debate, por vezes dilui seu impacto, fazendo com que certas motivações dramáticas pareçam frágeis ou pouco desenvolvidas.
A escolha de Yo-han como narrador e ponto de vista acrescenta uma camada interessante à narrativa. Como observador externo, ele projeta dúvidas e julgamentos sobre o relacionamento entre Gyeong-rok e Mi-jeong, funcionando como um narrador pouco confiável. A ideia é relevante, mas o roteiro nem sempre explora plenamente essa ambiguidade, o que gera momentos em que as ações dos personagens parecem desconectadas de seus sentimentos.
Outro eixo temático recorrente é o conflito com a figura paterna e as marcas deixadas pela ausência emocional. Esse elemento sustenta parte do drama de Gyeong-rok, mas surge de forma conhecida demais para causar grande impacto, especialmente dentro do cinema coreano contemporâneo, onde esse tipo de abordagem já é frequente.
O elenco é um dos pontos de sustentação do filme. Ko Ah-sung constrói Mi-jeong com delicadeza, evitando caricaturas e apostando em uma atuação contida, baseada em pequenas expressões. Moon Sang-min oferece um Gyeong-rok introspectivo, e a química entre os dois contribui para que a relação seja crível, mesmo quando o roteiro não aprofunda seus conflitos. Já Byun Yo-han, no papel de Yo-han, acaba se destacando como o eixo emocional da narrativa, funcionando quase como o fio condutor da história.

Crítica do filme: vale à pena assistir Pavana na Netflix?
Visualmente, Pavana aposta em uma fotografia cuidadosa e em uma paleta de cores que remete a um tempo indefinido, criando uma atmosfera levemente nostálgica. Essa estética, no entanto, contribui para uma sensação de distanciamento emocional. O filme se move em ritmo lento, próximo ao de uma composição musical suave, o que favorece a contemplação, mas também pode gerar dispersão e cansaço em alguns momentos.
No fim, Pavana é um filme que prefere sugerir a afirmar. Sua força está na observação silenciosa do arrependimento, da culpa e das palavras não ditas. Ainda assim, a escolha por uma abordagem excessivamente contida impede que o impacto emocional alcance todo o seu potencial. É uma experiência que convida à reflexão, mas que dificilmente dialoga com todos os públicos, permanecendo mais na memória pelo clima que constrói do que pela força de sua narrativa.