A produção mexicana Párvulos: Filhos do Apocalipse, que acaba de estrear no catálogo da HBO Max, chega como uma adição relevante ao cinema de terror contemporâneo ao combinar apocalipse zumbi, drama familiar e sátira social. Dirigido e coescrito por Isaac Ezban, o longa se afasta do espetáculo fácil para construir uma narrativa que aposta no desconforto e na ambiguidade moral.
A trama se passa após uma pandemia que saiu do controle, agravada por uma vacina defeituosa que transformou parte da população em criaturas violentas. Isolados em uma casa no meio da floresta, os irmãos Salvador, Benjamin e Oliver tentam sobreviver com recursos mínimos e regras próprias. A dinâmica inicial sugere um típico filme de sobrevivência, mas logo o roteiro revela um elemento central: no porão da casa, há algo que os dois irmãos mais velhos escondem do caçula. Essa escolha narrativa estabelece desde cedo o conflito entre proteção, negação e amadurecimento forçado.
Ezban constrói o terror menos a partir de sustos e mais da convivência com o impensável. O filme observa como o colapso da civilização afeta valores básicos, especialmente dentro da família. Benjamin, o mais novo, se recusa a aceitar a lógica brutal imposta pelos irmãos e insiste em preservar algum resquício de normalidade, mesmo quando o mundo já não comporta esse tipo de esperança. Essa tensão entre pragmatismo e afeto sustenta boa parte do drama.
Visualmente, Párvulos aposta em uma fotografia dessaturada, com tons frios e pouca variação cromática, reforçando a sensação de esgotamento e abandono. A câmera evita o excesso de movimento e privilegia enquadramentos que destacam a solidão dos personagens em meio à paisagem. A violência, quando surge, não é estilizada, mas direta, funcionando mais como consequência inevitável daquele ambiente do que como espetáculo.
O roteiro também flerta com o humor negro e a sátira, especialmente quando introduz referências religiosas e comentários sobre moralidade, sexualidade e culpa. Esses elementos ampliam a leitura do filme para além do terror, sugerindo reflexões sobre pensamento coletivo, fanatismo e o modo como crises extremas revelam contradições sociais já existentes. A presença de personagens externos ao núcleo familiar ajuda a expandir esse olhar e a questionar até que ponto ainda é possível confiar no outro.

Crítica de Párvulos: Filhos do Apocalipse – vale à pena assistir ao terror na HBO Max?
As atuações do trio protagonista sustentam o impacto emocional da história. O filme exige que crianças e adolescentes lidem com dilemas extremos, e o elenco consegue transmitir essa carga sem recorrer à caricatura. O resultado é uma experiência que incomoda justamente por parecer plausível dentro das regras que o próprio filme estabelece.
Embora o último ato se estenda além do necessário em alguns momentos, Párvulos: Filhos do Apocalipse se firma como um terror que prioriza ideias e atmosfera. Mais do que falar sobre zumbis, o longa discute até onde vai o amor familiar quando todas as estruturas externas desmoronam — e quais perdas são inevitáveis em um mundo que já não oferece escolhas fáceis.