A 2ª temporada de Paradise estreou no Disney+ com um episódio que surpreende ao adiar qualquer resposta imediata sobre Xavier e escolher um caminho mais paciente, focado na origem de Annie e na construção do mundo devastado fora da instalação subterrânea. O episódio 1 funciona menos como continuação direta e mais como um prólogo emocional, que amplia o alcance da série e estabelece novas tensões para os capítulos seguintes. Confira a nossa crítica e resumo do que rolou na estreia.
Recapitulação do episódio 1 da 2ª temporada de Paradise
Um desvio calculado: o passado de Annie no centro da narrativa
Após o impacto do final da primeira temporada, a expectativa natural era acompanhar os passos de Xavier na superfície. No entanto, o roteiro decide voltar várias décadas no tempo para apresentar Annie ainda criança, em visitas frequentes a Graceland, motivadas pelo amor de sua mãe por Elvis Presley. Essa escolha redefine o ritmo da série logo de início e deixa claro que a nova temporada está mais interessada em aprofundar personagens do que em acelerar respostas.
A morte da mãe de Annie, silenciosa e sem catarse, molda sua trajetória. A personagem não expressa o luto de forma convencional; ela o transforma em disciplina e obsessão pelos estudos, tentando seguir a carreira médica. Quando o trauma retorna e a faz abandonar a faculdade, Paradise mostra como o apocalipse não começa com o colapso do mundo, mas com pequenas rupturas internas. O reencontro simbólico com Graceland, agora como guia turística, representa uma tentativa de reconstrução emocional antes mesmo da queda da civilização.
Gayle e o apocalipse: sobrevivência antes do bunker
A relação entre Annie e Gayle, uma das seguranças de Graceland, é o eixo emocional do episódio. Quando o evento apocalíptico acontece — marcado pelo pulso eletromagnético que mergulha o mundo no escuro —, a série opta por uma abordagem íntima: duas mulheres isoladas em um símbolo da cultura pop americana tentando sobreviver com recursos limitados.
A morte de Gayle, 45 dias depois, reforça um tema recorrente em Paradise: a culpa dos sobreviventes. Annie revive o trauma de cuidar de alguém que ama sem conseguir salvá-la. A diferença é que, desta vez, Gayle verbaliza algo que a mãe nunca pôde dizer — orgulho. Esse momento não encerra apenas um arco narrativo; ele fornece à personagem a motivação necessária para continuar vivendo em um mundo que já não oferece garantias.
O mundo voltou a girar — mas não sem riscos
Quase dois anos depois, a dissipação da nuvem de cinzas e o retorno do sol introduzem uma mudança visual e simbólica importante. Annie cultivando uma planta em Graceland funciona como metáfora direta da segunda chance da humanidade. Esse breve respiro, porém, é interrompido pela chegada de um grupo de homens liderados por Link.
A reação defensiva de Annie não é tratada como paranoia gratuita. O episódio constrói esse conflito a partir da experiência feminina em um mundo sem leis, tornando compreensível sua decisão de se esconder e reagir com violência. Quando fica claro que o grupo não representa uma ameaça imediata, a série apresenta um novo núcleo de personagens — Geiger, Urkel, Chef, Big Papi e Gator — e amplia seu universo além da lógica do bunker.

A missão de Link e a sombra da instalação subterrânea
A conversa sobre o estado do planeta fornece pistas importantes sobre a mitologia da série. A explicação envolvendo o pulso eletromagnético, a queda de satélites e o risco das usinas nucleares estabelece um cenário coerente de reconstrução lenta. A missão de Link e sua equipe — desativar essas usinas antes do colapso — posiciona o grupo como agentes de transição entre o velho mundo e algo novo.
É nesse ponto que Paradise volta a conectar a narrativa ao seu arco principal. A menção à instalação subterrânea no Colorado e a uma mulher que eles procuram introduz uma ameaça indireta. Ainda sem respostas claras, o roteiro planta uma bomba-relógio narrativa: alguém mais sabe sobre o bunker e pode chegar até ele.
Romance contido e escolhas difíceis
O vínculo entre Annie e Link se desenvolve com contenção. Não há pressa nem idealização; o romance surge da solidão compartilhada e da necessidade de contato humano. O jantar coletivo, as conversas sobre o que cada um sente falta do mundo antigo e a visita guiada por Graceland reforçam o quanto Annie ainda se agarra à memória como forma de identidade.
Quando Link revela o plano de seguir para o bunker e “reiniciar o mundo”, o episódio coloca Annie diante de uma escolha clara: integrar-se a algo maior ou permanecer isolada. Sua recusa não soa como covardia, mas como coerência com tudo o que viveu até ali. A partida do grupo, pressionada pelo tempo e pela missão, encerra esse arco com mais perguntas do que respostas — inclusive sobre a saúde de Link.

Crítica do episódio 1 da 2ª temporada de Paradise
O encontro final: Annie e Xavier
Nos minutos finais, o episódio finalmente retorna ao ponto que motivou a estreia da temporada. O avião que cai próximo a Graceland leva Annie até Xavier, vivo, ferido e vulnerável. A série não se preocupa em detalhar as causas do acidente; o foco está no significado do encontro.
Esse momento conecta duas trajetórias paralelas: Annie, moldada pela perda e pela sobrevivência, e Xavier, impulsionado pela busca de Teri e dos filhos. Com Link e sua equipe seguindo para o bunker, o episódio estabelece um conflito iminente. Xavier precisa retornar à instalação antes que outros o façam, enquanto Annie se vê, mais uma vez, diante da possibilidade de não enfrentar o fim do mundo sozinha.
Um início paciente, mas estratégico, de Paradise
O episódio 1 da 2ª temporada de Paradise pode frustrar quem esperava respostas imediatas, mas cumpre uma função estrutural clara. Ao expandir o mundo fora do bunker e dar profundidade a Annie, a série prepara o terreno para conflitos mais complexos. É uma estreia que aposta no acúmulo emocional e na construção de tensão a longo prazo — uma escolha que, se bem explorada nos próximos capítulos, pode redefinir o alcance da narrativa.