Outcast e os demônios de Robert Kirkman

É possível afirmar que Robert Kirkman certamente possui algo parecido com o Toque de Midas. Tanto os quadrinhos quanto a série baseada em The Walking Dead são sucessos mundiais. As aventuras de Rick e são turma sempre estão no topo da lista de produções mais consumidas – e pirateadas – pelo público. Mais do que colocar seu nome em evidência, Kirkman catapultou os zumbis de volta ao mainstream da cultura pop. O que mais vemos hoje em dia são tentativas de lucrar em cima desse pessoal morto-vivo. Filmes dos mais variados gêneros, quadrinhos, séries, jogos e por aí vai. Claro que tanto uso acaba gerando um certo desgaste. Se The Walking Dead se mantém firme e forte – apesar de todos os problemas – o mesmo não pode se dizer de seus “irmãos”. Foi aí que Midas voltou seus olhos para outro lugar.

Outcast nasce justamente de uma nova empreitada de Robert Kirkman, tendo como foco algo ainda mais enraizado no subconsciente humano: os demônios. O quadrinista conta, no posfácio da primeira edição, que sua ideia era sair da fantasia apocalíptica onde os zumbis dominam a Terra e entrar em algo mais real. Tendo como base milhares de relatos de possessões demoníacas, ele tenta mostrar que é possível trabalhar com um medo tão ancestral como esse. Seja pelo selo Kirkman ou pelo fator TWD, a HQ desenhada por Paul Azaceta e publicada pela Image Comics tornou-se um sucesso instantâneo. E após dezoito edições, a série baseada em Outcast chegou a tela da Fox.

A sequência inicial já fisga o espectador logo de cara e solta apenas quando os créditos finais começam a subir. Sabemos que estamos diante de algo já visto centenas de vezes antes, mas que tem um brilho próprio. O piloto foi escrito pelo próprio Robert e dirigido por um mestre do terror atual, Adam Wingard. Adam se destacou principalmente no cenário do terror independente em Hollywood. Um dos responsáveis pelo movimento mumblegore, ele já dirigiu filmes como Você é o Próximo e episódios dos excelentes V/H/S e ABC da Morte. Se você precisava de mais um motivo para se interessar por Outcast, Adam Wingard está aí para isso.

A história é centrada em Kyle Barnes, vivido por Patrick Fugit (de Garota Exemplar). Um homem atormentado pelos demônios desde a infância, quando sua mãe foi possuída por um ou uns. Depois de ser violentado frequentemente, Kyle enfim consegue fugir do pesadelo. Agora vivendo ao lado de sua mulher e filha, ele acredita que está em paz. Mas demônios não são conhecidos por desistirem fácil e dão um jeito de destruir novamente a vida do desafortunado. Sem nada ao que se apegar, Kyle passa seus dias mofando em Rome, cidadezinha da Virgínia Ocidental. É nela que vive o Reverendo Anderson (Phillip Gleinstern), que também já teve suas experiências com demônios e agora tenta mandar o maior número possível deles de volta para o inferno.

Kyle e Anderson tem suas próprias cruzes para carregar, mas ao longo da primeira temporada vão formar uma dupla dinâmica no combate ao mal. Enquanto lidam com as possessões em Rome, eles vão tentar descobrir os motivos pelos quais os demônios parecem gostar tanto de Kyle. Mas esqueça logo a figura de dois homens super preparados para o serviço. A fé, aparentemente, não vai resolver tudo. Basta ver como eles lidam com o caso do primeiro episódio. É interessante que o público consiga acompanhar o desenvolvimento da trama e dos personagens, afinal todos estamos caminhando no escuro. E sabemos o que costuma habitar a escuridão.

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Ao que tudo indica, Outcast não vai sofrer com essa transposição de mídias. As páginas das HQ’s parecem storyboards perfeitamente montados para serem adaptados para a televisão. Hoje em dia muito se discute o conceito de adaptação e que tudo não precisa ser 100% idêntico. The Walking Dead costuma sofrer com isso frequentemente, principalmente com as diferenças entre as tramas (quem tá vivo, quem tá morto e etc). Parece que Robert Kirkman aprendeu alguma coisa nesse tempo em que esteve envolvido com o mundo dos quadrinhos e da TV. Até mesmo a escolha de atores tornou-se uma tarefa menos árdua, o que vai garantir que os fãs mais hardcore não tenham do que reclamar.

Claro que apesar de se diferenciar em alguns pontos, Outcast acaba caindo em clichês do segmento. A maioria deles presentes na cena de exorcismo. Olhos completamente negros, aumento de força física, levitação, contorção do corpo, voz gutural e a clássica parte onde o possuído revela os segredos mais íntimos do personagem principal. Sim, Exorcista ainda faz escola. A grande missão de Outcast é justamente fugir da fórmula procedural sobrenatural da “possessão da semana”. Se depender do material base e do episódio piloto, dá para dizer que está no caminho certo.

É cedo demais para afirmar se Robert Kirkman vai conseguir emplacar outra série de sucesso. Mas se Outcast fizer pelo gênero do terror pelo menos algo parecido com o que The Walking Dead fez pelos zumbis, já ficarei feliz.