O quarto episódio de Os Testamentos: Das Filhas de Gilead, derivado do universo de The Handmaid’s Tale, avança na construção de tensões internas em Gilead ao explorar jogos de poder, vigilância e o papel das jovens na engrenagem social do regime. Intitulado “Chá Verde”, o capítulo (já disponível no Disney+) combina eventos sociais aparentemente triviais com implicações graves para suas personagens. Confira a crítica e resumo do episódio 4 da série.
Daisy em território hostil
A narrativa se inicia com Daisy refletindo sobre a estética de Gilead. A impressão inicial de ordem e beleza contrasta com o medo constante de repressão. Como infiltrada, ela sabe que qualquer erro pode levá-la aos Olhos, a força de vigilância do regime.
Mesmo com a temporada de casamentos em andamento, Daisy mantém foco em sua missão. Ela adota um comportamento discreto, participando das atividades sociais sem chamar atenção. No entanto, o episódio deixa claro que ela não está sozinha: há outros agentes infiltrados, incluindo figuras improváveis como uma florista. Ainda assim, a hesitação de alguns desses aliados evidencia o risco da operação.
O ritual social e suas consequências
Agnes e Becka, vestidas de verde, circulam pela cidade ao lado de Daisy. Durante o trajeto, Daisy entra em pânico ao ver membros do Mayday executados publicamente. A cena reforça o nível de repressão e serve como alerta direto sobre o destino de rebeldes.
Na casa dos Mackenzie, ocorre o encontro social que estrutura o episódio. Agnes e Becka ensaiam uma dança, enquanto Paula Mackenzie organiza o ambiente para receber as Tias. A reunião funciona como um teste: as jovens precisam demonstrar habilidades domésticas e comportamento adequado para serem consideradas aptas ao casamento.
A dinâmica entre as famílias revela uma hierarquia clara. Paula ocupa posição central de poder entre as esposas, e sua aprovação pode definir o futuro das meninas. Daisy percebe essas nuances e observa como outras jovens tentam se aproximar de Paula para garantir vantagens.

Disputa e sabotagem
Um dos momentos centrais do episódio ocorre durante a apresentação das habilidades das jovens. A família Plum tenta impressionar com o serviço de chá, mas Paula interfere diretamente, sabotando Miriam e provocando sua queda. O acidente não é tratado como algo trivial: em Gilead, falhas públicas podem resultar em punições severas.
Daisy percebe que esse tipo de erro pode significar exclusão social ou algo mais grave, como envio às colônias. A cena reforça como até pequenos deslizes são politizados dentro do regime.
Conversas estratégicas e sinais externos
Enquanto circula pela casa, Daisy encontra o Comandante Mackenzie. A conversa gira em torno de Agnes, e Daisy usa o momento para reforçar sua posição dentro do ambiente. O comandante demonstra comportamento inesperadamente cordial e oferece um chocolate, detalhe que se tornará relevante mais adiante.
Durante o evento, também ocorre a tradição do “bolo do comandante”, que contém um objeto simbólico. Agnes encontra a estatueta de noiva, o que indica que será uma das primeiras a se casar. No entanto, ao morder o objeto, ela quebra um dente, o que leva a uma visita ao dentista.
O consultório e suas implicações
No consultório, o episódio introduz uma das situações mais tensas da narrativa. O dentista, revelado como pai de Becka, seda Agnes e a deixa sozinha em uma posição vulnerável. A direção opta por sugerir o ocorrido sem explicitá-lo, mas a implicação é clara.
Daisy, que aguardava do lado de fora, percebe que algo está errado, mas não consegue intervir. A sequência reforça a falta de proteção institucional para as jovens, mesmo dentro de famílias influentes.
Informação e isolamento
Após o encontro, Daisy entrega o chocolate recebido ao Garth. A inscrição em japonês revela que o produto não deveria circular em Gilead, indicando sanções internacionais contra o regime. O detalhe sugere que há fissuras no sistema, mesmo que pequenas.
Daisy também revela seus sentimentos por Garth, o que adiciona uma camada de risco à sua missão. Em um ambiente de vigilância constante, relações pessoais podem comprometer operações inteiras.
Consequências e repressão
No retorno, Daisy descobre que a florista infiltrada foi morta ao tentar fugir. A execução pública reforça a mensagem de que não há espaço para erros. O impacto da cena é direto: Daisy entende que precisa manter controle absoluto sobre suas ações.
Mais tarde, ao tentar se comunicar por rádio, ela recebe apenas um sinal fraco, indicando que a operação Mayday enfrenta dificuldades. O isolamento da personagem se intensifica.
O episódio termina com uma descoberta pessoal perturbadora: Daisy percebe que suas roupas foram violadas, indicando que também foi vítima do dentista. A revelação amplia o alcance da violência institucional e conecta sua experiência à de Agnes.

Análise crítica do episódio 4 de Os Testamentos
“Chá Verde” desenvolve múltiplas camadas narrativas ao explorar como Gilead controla corpos e comportamentos por meio de rituais sociais. O episódio mostra que eventos aparentemente cotidianos, como um chá ou uma dança, funcionam como mecanismos de seleção e exclusão.
A situação de Agnes evidencia a ausência de mecanismos de proteção. Mesmo em famílias influentes, denúncias são inviáveis devido às exigências legais do regime, como a necessidade de múltiplas testemunhas. Isso cria um sistema onde abusos permanecem sem consequências.
Daisy, por sua vez, representa o ponto de vista externo, mas também está sujeita às mesmas estruturas de poder. Sua infiltração revela limitações do próprio Mayday, que depende de jovens em posições vulneráveis para avançar sua agenda.
O episódio também sugere conflitos internos entre figuras de autoridade, como as Tias, indicando possíveis divisões ideológicas dentro do regime. Essas tensões podem se tornar relevantes nos próximos capítulos.
O episódio 4 de Os Testamentos: Das Filhas de Gilead utiliza um evento social para expor as engrenagens de controle de Gilead. Ao combinar tensão psicológica, política e social, “Chá Verde” amplia o escopo da série e prepara o terreno para desdobramentos mais intensos, especialmente com o enfraquecimento da comunicação do Mayday e o aumento do risco para suas agentes infiltradas.