A chegada de Os Malditos (The Damned) ao catálogo da HBO Max reforça uma tendência recente do cinema de terror: produções que apostam menos em sustos fáceis e mais em atmosfera, construção psicológica e identidade estética. Dirigido e coescrito por Thordur Palsson, o longa se distancia do horror genérico ao ambientar sua narrativa em uma isolada vila de pescadores na Islândia do século XIX, explorando o medo a partir do silêncio, do isolamento e do peso das decisões humanas.
A trama acompanha Eva (Odessa Young), uma viúva que administra uma pequena empresa de pesca em uma comunidade formada por poucas pessoas, todas dependentes do mar para sobreviver. A escassez de alimentos e as condições climáticas extremas já tornam a vida local frágil. Esse equilíbrio precário se rompe quando um navio estrangeiro naufraga próximo à costa e corpos começam a surgir na praia. A partir desse evento, acontecimentos inquietantes passam a assombrar a vila, colocando em xeque a moral, a fé e a sanidade de seus moradores.
Visualmente, Os Malditos se destaca pelo uso do cenário islandês como elemento narrativo. As paisagens cobertas de neve, as montanhas e o litoral reforçam a sensação de isolamento e abandono. O frio não é apenas um dado geográfico, mas um componente dramático que atravessa toda a experiência. A direção de Palsson explora esse ambiente de forma contemplativa, criando imagens que são ao mesmo tempo belas e opressivas, sempre a serviço da narrativa.
O terror do filme não surge de criaturas explícitas ou de reviravoltas abruptas, mas da construção constante de desconforto. A trilha sonora é econômica e utilizada de forma estratégica, enquanto o silêncio se transforma em uma das principais ferramentas de tensão. Em determinados momentos, a ausência total de som intensifica a sensação de ameaça, obrigando o espectador a preencher os vazios com sua própria imaginação. Essa escolha aproxima o longa de um terror mais psicológico, no qual o medo nasce da expectativa e da sugestão.
Narrativamente, The Damned trabalha temas como luto, culpa, trauma e sobrevivência. As escolhas feitas pelos personagens diante da tragédia revelam um horror que vai além do sobrenatural, refletindo dilemas éticos e emocionais. O roteiro evita respostas fáceis e aposta em ambiguidades, deixando espaço para interpretações e leituras distintas, o que amplia o impacto da experiência após o término da sessão.

No elenco, todos entregam atuações consistentes, com destaque para Joe Cole, Rory McCann e Francis Magee, rostos conhecidos do público. Ainda assim, o filme pertence a Odessa Young. A atriz sustenta a narrativa com uma performance contida e expressiva, transmitindo fragilidade, liderança e dor sem recorrer a excessos. Sua presença em cena é fundamental para o envolvimento emocional com a história.
Crítica do filme: vale à pena assistir Os Malditos na HBO Max?
Sem depender de grandes efeitos visuais ou fórmulas desgastadas, Os Malditos aposta na simplicidade e na precisão para provocar inquietação. O resultado é um terror atmosférico que valoriza o cinema como linguagem e reforça que o medo mais duradouro costuma surgir daquilo que não é totalmente visto ou explicado. Uma estreia relevante no streaming para quem busca experiências mais densas dentro do gênero.