A chegada de Os Cantores (The Singers) ao catálogo da Netflix amplia o acesso a um dos curtas-metragens mais comentados da atual temporada de premiações. Indicado ao Oscar, o filme dirigido por Sam A. Davis aposta em uma narrativa simples para construir uma observação direta sobre pertencimento, memória e o papel da música como elo entre pessoas à margem.
Com apenas 18 minutos, o curta adapta um conto do século XIX de Ivan Turgenev, transportando a ação para um pub isolado, frequentado por homens que parecem carregar mais histórias do que perspectivas. A trama se organiza a partir de uma competição improvisada de canto, proposta quase como passatempo, mas que rapidamente se transforma no centro emocional da noite. O prêmio em dinheiro é secundário; o que está em jogo é a chance de ser ouvido, ainda que por alguns minutos.
A encenação evita explicações excessivas. Davis constrói o ambiente com calma, permitindo que o espectador observe os rostos, os gestos e os silêncios antes que a música tome conta do espaço. A decisão de filmar em 35mm e utilizar a proporção 4:3 reforça essa sensação de intimidade, aproximando a câmera dos personagens e limitando o mundo ao interior do bar. A fotografia privilegia closes e planos médios, criando uma relação direta entre quem canta e quem escuta, sem a interferência de cortes chamativos ou movimentos elaborados.
O design de produção aposta no essencial. Lareiras ao fundo, iluminação quente e a presença constante da fumaça ajudam a definir um espaço que parece suspenso no tempo. Não há tentativa de glamourizar o cenário; o pub é apresentado como um local gasto pelo uso, mas ainda funcional como ponto de encontro. Essa escolha visual dialoga com a proposta narrativa: registrar um momento específico, que existe apenas ali e naquela noite.
Um dos aspectos mais comentados de Os Cantores é o elenco formado por estreantes, muitos deles descobertos nas redes sociais. A opção confere autenticidade às performances, já que cada participante da competição carrega uma voz e uma presença distintas. As apresentações musicais não seguem um padrão técnico rígido. Pelo contrário, o filme valoriza imperfeições, pausas e variações de ritmo, elementos que reforçam a ideia de expressão pessoal em vez de espetáculo.
O personagem do barman funciona como fio condutor da ação, organizando a disputa e, ao mesmo tempo, revelando seus próprios conflitos ao longo da noite. A música atua como catalisador, permitindo que emoções reprimidas venham à tona sem a necessidade de diálogos explicativos. É nesse ponto que o curta encontra sua força: na observação de como indivíduos distintos, reunidos por acaso, compartilham algo comum por meio da canção.

Exibido em festivais como o SXSW e o Festival de Cinema de Tribeca, Os Cantores acumulou prêmios e reconhecimento antes de chegar ao streaming. Ainda que seu apelo possa ser associado ao uso de músicas conhecidas, o filme se sustenta principalmente pela forma como organiza seus elementos técnicos em função da experiência humana que deseja registrar.
Crítica de Os Cantores: vale à pena assistir ao curta-metragem na Netflix?
Sem recorrer a discursos grandiosos, o curta propõe um olhar atento sobre pessoas que raramente ocupam o centro da cena. Ao final, o que permanece não é a definição de um vencedor, mas a memória de um instante compartilhado. É essa escolha contida e observacional que explica por que Os Cantores se destaca entre os indicados e encontra, agora na Netflix, um público mais amplo.