O Último Azul (2025) - Crítica do Filme O Último Azul (2025) - Crítica do Filme

O Último Azul (2025) | Crítica do Filme

Dirigido por Gabriel Mascaro, O Último Azul é um drama distópico brasileiro que estreia na Netflix após passagem pelos cinemas e propõe uma reflexão direta sobre envelhecimento, autonomia e o modo como o Estado lida com a população idosa. Estrelado por Denise Weinberg e Rodrigo Santoro, o filme constrói um futuro próximo que dialoga de forma evidente com tensões sociais do presente, utilizando o Brasil como cenário para uma discussão de alcance universal. Leia a crítica:

Na trama, o governo institui uma política que realoca cidadãos acima de uma determinada idade para colônias distantes, sob o discurso de que a medida atende ao bem coletivo. Na prática, porém, a decisão se revela baseada em critérios econômicos e administrativos, eliminando direitos e escolhas individuais. Teresa, personagem de Denise Weinberg, tem 77 anos e passa a ser diretamente afetada quando o limite etário é reduzido de 80 para 75 anos. Submetida à tutela da filha, ela perde a própria autonomia e se vê tratada como incapaz, apesar de sua lucidez e desejo de viver de forma independente.

Mascaro constrói esse universo distópico de maneira orgânica, sem recorrer a grandes efeitos ou explicações expositivas. O controle estatal se manifesta em detalhes cotidianos, como o uso constante de documentos de identificação e a vigilância permanente, elementos que remetem a práticas já presentes no mundo contemporâneo. O chamado “Carro das Rugas”, veículo usado para transportar os idosos realocados, sintetiza o tom irônico e perturbador da narrativa ao expor a violência simbólica embutida na política pública.

Diante desse cenário, Teresa decide desafiar a ordem estabelecida e embarca em uma jornada pela Amazônia. Seu objetivo, à primeira vista simples, é viajar de avião pela primeira vez. A viagem, no entanto, se transforma em um processo de redescoberta pessoal, no qual a personagem passa a questionar não apenas o sistema que a oprime, mas também os limites que lhe foram impostos ao longo da vida. Denise Weinberg sustenta o filme com uma atuação precisa, transmitindo a frustração e a resistência de alguém que se recusa a aceitar o apagamento social.

Durante o percurso, Teresa conhece Cadu, interpretado por Rodrigo Santoro, um homem enigmático que vive à margem das regras oficiais e a ajuda a seguir adiante. É nesse ponto que o filme introduz um de seus elementos mais surrealistas: um caracol cuja baba azul teria a capacidade de revelar vislumbres do futuro quando aplicada nos olhos. Embora o conceito flerte com o fantástico, Mascaro mantém a narrativa ancorada em um realismo simbólico, usando o elemento como metáfora para escolhas e possibilidades, não como solução narrativa fácil.

O Último Azul (2025) - Crítica do Filme

A história ganha novo fôlego com a entrada de Roberta, vivida por Miriam Socorrás, uma mulher que circula livremente em um barco comercializando bíblias eletrônicas. A relação entre as duas reforça o eixo central do filme, que trata da liberdade tardia e da recusa em aceitar que a vida tenha um prazo de validade socialmente imposto. O Último Azul encontra nesse encontro um equilíbrio mais claro entre crítica política e trajetória íntima.

Crítica: Vale à pena assistir O Último Azul na Netflix?

Ao final, o longa se afirma como uma obra que questiona políticas públicas excludentes e o modo como sociedades lidam com o envelhecimento. Sem recorrer a discursos diretos, Gabriel Mascaro propõe uma distopia que incomoda justamente por sua proximidade com a realidade. O Último Azul sugere que nunca é tarde para reivindicar autonomia e que envelhecer não deveria significar desaparecer.