O Mundo Vai Tremer (The World Will Tremble, 2025), novo destaque da Netflix, parte de um território já bastante explorado pelo cinema: o Holocausto. Ainda assim, o longa dirigido e roteirizado por Lior Geller encontra relevância ao escolher um recorte histórico específico e pouco retratado, apostando menos na reconstituição do horror em larga escala e mais na experiência humana daqueles que foram forçados a testemunhá-lo. Leia a nossa crítica.
Resultado de uma década de pesquisa, o filme se concentra no campo de extermínio de Chełmno, na Polônia, considerado o primeiro centro nazista criado exclusivamente para assassinatos em massa. A narrativa acompanha Solomon Wiener e Michael Podchlebnik, dois prisioneiros judeus que conseguiram escapar do local em 1942 e levar ao mundo exterior os primeiros relatos diretos sobre o genocídio em curso. Seus depoimentos acabariam divulgados pela BBC e pelo The New York Times, tornando-se registros históricos fundamentais.
Desde os minutos iniciais, Geller estabelece o tom do filme com uma encenação contida e precisa. A câmera se aproxima dos rostos, insiste nas expressões e transforma o silêncio em elemento dramático central. Não há pressa em explicar o funcionamento do campo: o cotidiano de trabalho forçado, a repetição mecânica das tarefas e a normalização da violência constroem, pouco a pouco, a dimensão do que está em jogo. Essa opção narrativa evita excessos e confere peso ao que não é dito.
O elenco sustenta essa proposta com atuações marcadas pela contenção. Oliver Jackson-Cohen interpreta Solomon como alguém que tenta sobreviver obedecendo regras, enquanto Jeremy Neumark Jones dá a Michael um olhar constantemente assombrado pela perda. Já Wolf, vivido por Charlie MacGechan, representa a urgência da resistência. O confronto entre essas posturas ajuda a mover a trama até o momento da fuga, que ocupa a segunda metade do filme e introduz tensão física sem abandonar o tom realista.
Do ponto de vista técnico, O Mundo Vai Tremer aposta em uma estética despojada. A fotografia de Ivan Vatsov privilegia tons acinzentados e terrosos, reforçando a sensação de desgaste constante. A natureza aparece como contraste silencioso, nunca como alívio. A trilha sonora de Erez Koskas surge de forma econômica, pontuando emoções sem conduzir excessivamente o espectador.

Crítica do filme: vale à pena assistir O Mundo Vai Tremer na Netflix?
Geller também demonstra cuidado ao retratar os algozes. Herbert Lange, comandante do campo, surge como uma figura burocrática, cuja cordialidade aparente acentua o desconforto. A violência não é estilizada nem transformada em espetáculo, mas apresentada como parte de um sistema organizado, o que torna a experiência ainda mais perturbadora.
Mesmo com alguns momentos de ritmo irregular e diálogos que soam artificiais em certos trechos, o filme se sustenta pela seriedade do projeto. Ao final, quando a narrativa alcança a divulgação dos relatos dos sobreviventes, O Mundo Vai Tremer reafirma seu objetivo principal: preservar a memória histórica a partir do testemunho. Sem recorrer a excessos, o longa se impõe como um registro cinematográfico comprometido com a lembrança e com a responsabilidade de olhar para um passado que não pode ser esquecido.