A estreia de O Jogo do Predador (Apex, 2026) na Netflix aposta em uma combinação conhecida de thriller de sobrevivência com drama psicológico, reunindo nomes de peso como Charlize Theron, Taron Egerton e Eric Bana. Dirigido por Baltasar Kormákur, a partir de roteiro de Jeremy Robbins, o longa tenta equilibrar ação intensa e reflexões sobre luto e sobrevivência — mas nem sempre encontra o tom ideal.
A abertura é, sem dúvida, um dos pontos mais fortes do filme. Em uma sequência ambientada na imponente Troll Wall, na Noruega, somos apresentados ao casal Sasha (Theron) e Tommy (Bana), alpinistas experientes que demonstram intimidade tanto entre si quanto com o ambiente extremo. A construção da cena estabelece rapidamente o domínio técnico dos personagens e o fascínio do filme pela relação entre corpo humano e natureza. No entanto, uma tragédia durante a descida encerra essa introdução de forma abrupta e serve como motor emocional para o restante da narrativa.
Meses depois, Sasha surge na Austrália, tentando lidar com o trauma e buscando reconexão em uma jornada solitária por um parque nacional remoto. A proposta inicial sugere um drama contemplativo sobre perda e superação, mas o roteiro rapidamente muda de direção ao introduzir Ben (Egerton), um estranho que se revela o verdadeiro antagonista da história. A partir daí, o filme se transforma em um jogo de perseguição em meio à natureza selvagem.
É nesse ponto que O Jogo do Predador (Apex) revela sua principal fragilidade: a falta de coesão temática. O roteiro de Robbins parece dividir sua atenção entre múltiplas ideias — o luto de Sasha, a ameaça masculina representada por Ben e uma tentativa de comentário sobre a relação predatória do homem com a natureza. Nenhuma dessas linhas é desenvolvida com profundidade suficiente, resultando em uma narrativa fragmentada. O contraste entre a proposta introspectiva do início e a virada para um thriller mais convencional compromete o impacto dramático.

Ainda assim, o filme encontra força na execução técnica e nas performances. Charlize Theron reafirma sua presença como protagonista de ação, entregando uma atuação física convincente, especialmente nas sequências que envolvem corredeiras, escaladas e confrontos diretos. Mesmo com menos tempo de destaque do que o esperado, sua personagem sustenta a tensão emocional do longa.
Por outro lado, Taron Egerton assume um papel de destaque como o antagonista. Sua interpretação aposta em uma instabilidade inquietante, transformando Ben em uma figura imprevisível. O embate entre os dois atores sustenta boa parte do filme, ainda que o roteiro nem sempre ofereça material à altura. Já Eric Bana, apesar de aparecer pouco, cumpre bem sua função narrativa ao estabelecer o vínculo inicial que motiva a jornada de Sasha.
Visualmente, o filme aproveita bem as locações naturais. Florestas, rios e cavernas são integrados à ação de forma eficiente, criando sequências que valorizam o ambiente como elemento ativo da narrativa. No entanto, há momentos em que o uso de efeitos visuais se torna perceptível, quebrando parte da imersão. Além disso, a direção opta por priorizar momentos de impacto imediato, em detrimento de uma construção mais detalhada da jornada, o que torna algumas cenas simplificadas em termos de progressão dramática.

Outro ponto que chama atenção é a limitação do próprio cenário. Ambientado na Austrália, um território conhecido por sua fauna hostil, o filme pouco explora esse potencial, reduzindo os perigos naturais a situações pontuais. Isso enfraquece a ideia de sobrevivência em um ambiente extremo, deslocando o foco quase exclusivamente para o conflito humano.
Crítica do filme: vale à pena assistir O Jogo do Predador na Netflix?
No fim, O Jogo do Predador (Apex) funciona melhor como entretenimento direto do que como uma obra com ambições temáticas mais amplas. A tentativa de combinar introspecção emocional com ação constante resulta em um filme irregular, que não explora totalmente suas ideias mais interessantes. Ainda assim, o carisma do elenco e a competência nas cenas de ação garantem uma experiência acima da média dentro do catálogo de thrillers da Netflix.
Para quem busca um suspense de sobrevivência com ritmo acelerado e atuações sólidas, o filme cumpre seu papel. Mas fica a sensação de que, com mais tempo e foco, poderia ter alcançado um resultado mais consistente.