Na Terra de Santos e Pecadores (2023) | Crítica do filme com Liam Neeson Na Terra de Santos e Pecadores (2023) | Crítica do filme com Liam Neeson

Na Terra de Santos e Pecadores (2023) | Crítica do filme com Liam Neeson

Liam Neeson encontra substância em um western irlandês

Em meio a uma maré de thrillers de ação genéricos que definiram sua fase mais velha, Liam Neeson encontra um papel com alma e peso narrativo em “Na Terra de Santos e Pecadores”. Dirigido por Robert Lorenz, veterano colaborador do mestre Clint Eastwood, o filme se afasta da fórmula de vingança pura para mergulhar em um “faroeste existencial irlandês”, ambientado nos anos 1970, durante os sangrentos “The Troubles” (Conflito na Irlanda do Norte). O resultado é um drama que resgata a credibilidade de Neeson e aproveita um elenco exemplar de atores irlandeses.

A trama se inicia com um impacto brutal: um atentado a bomba do IRA, comandado pela fria Doireann McCann (Kerry Condon), mata três crianças por acidente em Belfast. Forçada a fugir, ela e seu grupo se escondem em um pacato vilarejo no condado de Donegal. É ali que vive Finbar Murphy (Liam Neeson), um homem idoso e tranquilo que, à primeira vista, parece ser um humilde livreiro em busca de um novo proposito.

Finbar Murphy e sua vida dupla

A quietude de Finbar, no entanto, esconde um passado sombrio. Ele é, na verdade, um assassino de aluguel, que trabalhou por anos para o chefão local Robert McQue (Colm Meaney). Sua peculiaridade é plantar uma árvore no local onde enterra suas vítimas – um ritual que fala de um homem atormentado pela culpa, tentando dar vida onde ele a tirou. Finbar busca redenção e uma vida pacífica ao lado de sua amada vizinha Rita (Niamh Cusack) e de seu amigo, o guarda Vinnie (Ciarán Hinds). No entanto, a chegada dos violentos forasteiros do IRA irá arrastá-lo para uma espiral de violência.

Os Códigos de Violência em Na Terra de Santos e Pecadores

O grande trunfo do roteiro é contrastar dois tipos de violência. De um lado, a de Finbar: profissional, calculada, direcionada a “alvos que mereciam”. Do outro, a violência ideológica e indiscriminada de Doireann e seu grupo, que mostra poucos escrúpulos com vidas inocentes. Quando um dos irmãos de Doireann comete um ato hediondo contra uma uma garotinha, o velho assassino vê seus novos princípios serem testados. A vingança pessoal se torna inevitável, mas carregada do peso moral de quem jurou deixar aquele caminho.

A maior qualidade de “Na Terra de Santos e Pecadores” está, sem dúvida, em seu elenco. Liam Neeson tem uma performance mais contida e reflexiva, mostrando a fadiga e o arrependimento de um homem que carrega o peso de seus pecados. Kerry Condon (indicada ao Oscar por “Os Banshees de Inisherin”) é convincente como a antagonista implacável, um “cavaleiro negro” em forma de militante fanática. Ciarán Hinds e Colm Meaney trazem credibilidade e peso em papéis secundários, enquanto Jack Gleeson (o detestável Rei Joffrey de Game of Thrones) rouba cenas como o jovem, deslumbrado e irritante assassino ao lado de Finbar, ansioso para fugir daquele lugar.

Limitações narrativas e belezas visuais

Apesar dos acertos, “Na Terra de Santos e Pecadores” não está livre de falhas. A narrativa perde ritmo após sua primeira metade, acomodando-se em uma previsibilidade típica do gênero. As questões morais e religiosas sobre pecado, redenção e a natureza cíclica da violência, tão pertinentes ao contexto irlandês, são apenas raspadas na superfície, sem a profundidade que poderiam ter. A personagem de Rita, em especial, é subutilizada e sumariamente afastada da trama após um ato de violência.

No entanto, o filme é salvo pela atmosfera e pela fotografia. As paisagens deslumbrantes de Donegal – com seus penhascos, campos verdejantes e muros de pedra – são personagens por si só, emprestando um ar melancólico à história. O clímax, um confronto final ao estilo western, é coreografado com tensão eficiente, mostrando a ação esperada sem trair o tom mais sério da produção.

Vale a pena?

“Na Terra de Santos e Pecadores” é um passo na direção certa para a carreira tardia de Liam Neeson. É um filme que respeita a inteligência do espectador, priorizando drama de personagem sobre tiroteios incessantes. Funciona mais como um “western de aposentadoria” sombrio do que como um thriller de ação, e é nessa modulação que ele encontra sua força.

Para os fãs de Neeson cansados da repetição, é um sopro de ar fresco. Para os apreciadores de dramas de gângster com sotaque irlandês e um elenco de peso, é uma viagem satisfatória, ainda que não inesquecível. O filme prova que, quando apoiado por um bom texto e uma direção focada, o veterano ator ainda tem muito a oferecer – muito além daquele “conjunto particular de habilidades”.