Logo na abertura, a série estabelece seu tom ao apresentar um grupo de mulheres envolvidas em golpes sofisticados fora da prisão, antes de serem levadas para La Quebrada. A sequência funciona como síntese do que a temporada pretende discutir: sobrevivência, oportunismo e adaptação em contextos extremos. O retorno de Gladys Guerra, vivida por Ana Garibaldi, serve como fio condutor para o espectador reencontrar um espaço que já não funciona sob as mesmas regras. A antiga hierarquia ruiu, e novas figuras passaram a controlar os fluxos de poder dentro da penitenciária.
A introdução de uma nova diretora, Beatriz Lanteri, altera de forma decisiva a dinâmica institucional. Sua presença reforça a ideia de que o controle da prisão não se limita às detentas, mas também às decisões administrativas e às relações ambíguas entre autoridade e corrupção. Em paralelo, a ascensão de Gringa Casares como líder informal do bloco principal desloca o eixo narrativo para um território mais explícito, onde exploração, intimidação e negociações ilícitas são conduzidas sem disfarces. A atuação de Verónica Llinás dá densidade à personagem, que se impõe menos pela estratégia e mais pela imprevisibilidade.
Diferentemente da primeira temporada, em que o grupo das chamadas “mulheres da lama” atuava de forma mais coesa, os novos episódios apostam na fragmentação. Cada personagem passa a seguir seus próprios interesses, o que amplia o número de conflitos e reduz a sensação de unidade. Essa escolha aproxima a série de produções como Orange Is the New Black, especialmente na forma como o foco se desloca do protagonismo individual para um mosaico de histórias que se cruzam e se chocam constantemente.
Narrativamente, a temporada se mostra mais ambiciosa. Tramas envolvendo crimes externos, investigações internas e disputas emocionais se sobrepõem, nem sempre com o mesmo grau de desenvolvimento. Em alguns momentos, o roteiro parece acelerar acontecimentos para manter a tensão, o que pode comprometer a coerência de certas decisões. Ainda assim, o texto acerta ao evitar personagens unidimensionais, oferecendo contexto suficiente para que atitudes contraditórias façam sentido dentro daquele ecossistema.

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Tecnicamente, a direção mantém uma abordagem contida, explorando corredores, celas e espaços coletivos com enquadramentos fechados que reforçam a sensação de vigilância constante. A trilha sonora surge de forma pontual, funcionando mais como reforço de atmosfera do que como guia emocional. O ritmo varia entre episódios mais ágeis e outros mais contemplativos, refletindo a instabilidade que define La Quebrada nesta fase.
No balanço geral, a segunda temporada de Na Lama (En el barro) não busca conforto nem repetição. Ao reformular suas relações de poder e ampliar o olhar sobre suas personagens, a série se consolida como um drama carcerário interessado menos em choques pontuais e mais nas consequências de cada escolha. Mesmo com irregularidades, o foco nos conflitos humanos sustenta o interesse e deixa o terreno preparado para novos desdobramentos.