A segunda temporada de Mil Golpes (A Thousand Blows) acaba de chegar ao Disney+/Hulu e reafirma a assinatura criativa de Steven Knight, conhecido por dramas de época que rejeitam qualquer idealização romântica do passado. Ambientada no leste de Londres da década de 1880, a série segue explorando um submundo marcado por violência, ambição e sobrevivência, agora aprofundando conflitos pessoais e ampliando o alcance de suas intrigas.
A 2ª temporada da série traz algo novo?
Desde a cena de abertura, a nova temporada deixa claro que pouco mudou no tom: Hezekiah Moscow (Malachi Kirby) é apresentado em mais uma luta brutal de boxe sem luvas, diante de uma plateia hostil que não esconde o preconceito contra o imigrante jamaicano. O embate funciona como síntese da jornada do personagem, que retorna ao ringue em busca de dinheiro para realizar o sonho de voltar à Jamaica, idealizado ao lado do falecido amigo Alec Munroe. A violência do esporte se mistura ao ressentimento racial e à frustração pessoal, elementos que continuam a mover o arco de Hezekiah.
Paralelamente, a série acompanha a decadência de Henry “Sugar” Goodson (Stephen Graham). Antes um lutador temido, agora ele surge afundado no alcoolismo após perder o controle da taverna Blue Coat Boy, administrada com o irmão Treacle (James Nelson-Joyce). Treacle, por sua vez, enfrenta alucinações e sinais claros de comprometimento cognitivo causados pelas sucessivas surras no ringue. Essa dupla representa o custo físico e psicológico de um mundo que consome seus próprios protagonistas.
O núcleo que mais se destaca, no entanto, continua sendo o de Mary Carr, interpretada por Erin Doherty. Na segunda temporada, Mary planeja um novo grande golpe ao lado de Alice Diamond (Darci Shaw), mirando cofres bancários e joias, mas com ambições que vão além do lucro imediato. Seu objetivo é retomar o controle dos Quarenta Elefantes e se libertar de alianças inconvenientes, especialmente da parceria com Indigo Jeremy (Robert Glenister), figura que simboliza o poder masculino que ela tenta contornar ou dominar. Mary não age por impulso: cada movimento é calculado para consolidar sua posição como líder.
É justamente essa complexidade que faz de Mary a personagem mais interessante da série. Enquanto os homens ao seu redor afundam em vícios, traumas ou ressentimentos, ela opera em múltiplos níveis, negociando poder, lealdade e sobrevivência. Sua ambição não é apenas roubar, mas comandar, escolhendo quando e com quem trabalhar. A atuação de Doherty sustenta esse equilíbrio entre frieza estratégica e carisma, tornando cada cena imprevisível.
A temporada também introduz com mais peso Victoria Davies (Aliyah Odoffin), afilhada da Rainha Vitória, que cruza o caminho de Hezekiah pouco antes de sua tentativa de deixar Londres. Ao oferecer uma nova perspectiva sobre o passado do boxeador e propor que ele volte a ensinar o esporte, Victoria surge como uma possibilidade de redenção e mudança de rota, indicando novos rumos para o personagem.

Crítica: vale à pena assistir a 2ª temporada de Mil Golpes no Disney+?
Em termos de comparação, Mil Golpes segue dialogando com outras obras de Steven Knight, como Peaky Blinders, tanto pelo retrato cru da época quanto pela trilha sonora moderna e pelo foco em personagens à margem do poder oficial. A segunda temporada não suaviza seus temas, mas aprofunda conflitos já estabelecidos, apostando mais no desenvolvimento psicológico do que em reviravoltas fáceis.
No balanço geral, a nova leva de episódios vale a atenção sobretudo pelo trabalho do elenco, com destaque para Erin Doherty e Stephen Graham, e pela forma como a série expande seu universo sem perder identidade. Mil Golpes continua sendo um drama histórico interessado menos em glamour e mais nas marcas deixadas pela luta diária por espaço e sobrevivência.