A presença constante de Max: O Cão Herói (2015) entre os filmes mais assistidos da Netflix mostra como produções com animais continuam encontrando espaço junto ao público familiar. Dirigido por Boaz Yakin, o longa aposta no carisma de seu protagonista canino para sustentar uma narrativa que mistura drama, ação e amadurecimento juvenil, ainda que nem sempre encontre equilíbrio entre esses elementos.
Histórias centradas em cães heroicos fazem parte de uma longa tradição de Hollywood, que remonta aos tempos de Rin Tin Tin, astro do cinema mudo. Max se insere nessa linhagem ao apresentar um pastor-belga-malinois treinado para atuar ao lado de fuzileiros navais no Afeganistão. Após a morte de seu treinador, o soldado Kyle Wincott (Robbie Amell), o animal retorna aos Estados Unidos carregando sinais claros de trauma, o que estabelece o ponto de partida emocional do filme.
O impacto da perda se estende à família de Kyle, que vive em uma pequena cidade do Texas. A mãe Pamela (Lauren Graham) tenta manter a rotina enquanto lida com o luto, e o pai Ray (Thomas Haden Church), veterano da Guerra do Golfo, enfrenta limitações físicas e emocionais. Já Justin (Josh Wiggins), o irmão mais novo, canaliza sua frustração em atitudes impulsivas e conflitos constantes com o pai. É nesse contexto que Max passa a integrar a família, inicialmente como uma lembrança incômoda da tragédia recente.
A relação entre Justin e o cão se torna o eixo mais consistente da narrativa. Ao perceber que é o único capaz de se aproximar de Max sem provocar reações agressivas, o adolescente encontra no animal uma forma de lidar com a própria raiva e com o sentimento de inadequação. O filme funciona melhor quando se dedica a esse processo de aproximação, mostrando como a convivência entre os dois contribui para um amadurecimento gradual do garoto.
O roteiro, no entanto, opta por ampliar o escopo da história ao introduzir uma subtrama envolvendo tráfico ilegal de armas e um ex-companheiro de Kyle, Tyler (Luke Kleintank). Essa escolha desloca o foco do drama familiar para um suspense policial que exige uma série de decisões pouco convincentes por parte dos adultos. A ingenuidade atribuída a Ray, que passa a confiar em Tyler apesar do comportamento claramente suspeito e das reações de Max, fragiliza a coerência emocional construída até então.
Boaz Yakin demonstra cuidado pontual na condução de algumas cenas, especialmente nos momentos mais intimistas entre pai e filho, que oferecem ao personagem de Thomas Haden Church espaço para um confronto direto com o luto. O diretor também aposta em recursos visuais discretos — como detalhes de iluminação e enquadramentos atmosféricos — para reforçar a tensão em momentos-chave.

Crítica do filme: vale à pena assistir Max: O Cão Herói na Netflix?
Ainda assim, é Max quem concentra o verdadeiro apelo do filme. Interpretado principalmente por um cão chamado Carlos, o personagem é tratado com sobriedade, sem excessos de antropomorfização. Essa escolha ajuda a manter certa credibilidade emocional, mesmo quando a trama se aproxima de situações improváveis.
Sendo assim, Max: O Cão Herói se apoia mais na empatia gerada por seu protagonista de quatro patas do que na solidez de seu roteiro. É um filme que encontra força nas relações afetivas que constrói, mas que se perde ao tentar expandir demais seu conflito central, testando os limites de sua proposta familiar.