Matar. Vingar. Repetir (Redux Redux, 2025), dirigido e escrito pelos irmãos Kevin McManus e Matthew McManus, é um thriller de ficção científica que aposta em uma premissa direta e em um desenvolvimento focado em personagens. Em vez de explicar cada detalhe de seu conceito de viagem entre universos paralelos, o filme opta por construir um drama centrado no luto e na obsessão. Leia a crítica do filme disponível no HBO Max.
A trama de Redux Redux
A narrativa acompanha Irene Kelly (Michaela McManus), uma mulher que percorre diferentes realidades para executar o mesmo homem repetidas vezes: Neville (Jeremy Holm), responsável pelo sequestro e assassinato de sua filha. Para isso, Irene utiliza uma máquina de metal instalada em sua caminhonete, capaz de transportá-la entre versões alternativas do mundo.
Uma história de vingança que atravessa universos
O roteiro estabelece rapidamente a rotina da protagonista. Em cada realidade, Irene localiza Neville e o mata. Às vezes o confronto acontece na lanchonete onde ele trabalha; em outras, ela o segue até sua casa. Em uma dessas ocasiões, encontra uma caixa escondida sob a cama do criminoso, contendo evidências de seus crimes, incluindo mechas de cabelo e uma arma.
Essa repetição estrutura o filme. Cada universo apresenta pequenas variações: cores diferentes em objetos, mudanças discretas no ambiente e pequenas alterações nas interações. Ainda assim, o destino de Neville permanece o mesmo na maior parte das realidades visitadas por Irene.
A produção evita explicar a origem da tecnologia usada para viajar entre dimensões. O funcionamento da máquina, quem a construiu ou se existem outras iguais não se tornam o foco da narrativa. Em vez disso, os diretores concentram o desenvolvimento na deterioração emocional da protagonista.
A espiral emocional de Irene Kelly
Irene vive um ciclo marcado por violência e solidão. Entre uma missão e outra, ela se abriga em uma casa abandonada que pertence a outra versão de si mesma. No local ainda existem marcas do crescimento da filha na moldura de uma porta, lembrando constantemente aquilo que motivou sua jornada.
O desempenho de Michaela McManus sustenta essa dimensão dramática. A atriz constrói uma personagem que alterna distanciamento emocional e intensidade, refletindo o desgaste provocado por anos dedicados à vingança.
Em alguns universos, Irene também encontra Jonathan (Jim Cummings), um homem que participa de reuniões de apoio para pessoas em luto. A protagonista repete com ele as mesmas falas e aproximações em diferentes linhas temporais, como se testasse pequenas variações de um encontro que nunca se concretiza.
Essas interações reforçam o estado emocional da personagem, sugerindo que sua vida se transformou em um processo mecânico, semelhante à máquina que utiliza para viajar entre realidades.
O encontro com Mia muda o rumo da narrativa
A estrutura do filme se altera quando Irene entra em um universo no qual encontra uma adolescente amarrada dentro da casa de Neville. A garota, Mia (Stella Marcus), tem 15 anos e estava prestes a se tornar mais uma vítima do criminoso.
Depois de libertá-la, Irene decide protegê-la. A relação entre as duas se torna o eixo da segunda metade do filme. Apesar da personalidade confrontadora de Mia, a jovem passa a ocupar um espaço que remete à filha perdida da protagonista.
A dinâmica entre as personagens lembra parcerias clássicas de ação e ficção científica, com a jovem aprendendo a lidar com o perigo enquanto Irene assume o papel de mentora. Stella Marcus constrói uma adolescente impulsiva, que precisa aprender a confiar em alguém.
Matar. Vingar. Repetir e a ficção científica como metáfora
Embora a presença do multiverso seja central na trama, o elemento funciona principalmente como metáfora. As diferentes realidades representam escolhas e caminhos possíveis, algo que o filme sugere ao mostrar pequenas mudanças entre os universos.
A narrativa levanta uma questão recorrente: em que momento a busca por vingança deixa de ser justiça e passa a consumir quem a pratica? Ao repetir o mesmo ato em inúmeras realidades, Irene se aproxima de um ponto de ruptura emocional.
Esse conflito se intensifica à medida que novos obstáculos surgem. Neville não é apenas um alvo passivo; em algumas versões da história, ele demonstra astúcia suficiente para ameaçar o plano da protagonista. O roteiro também introduz personagens ligados à tecnologia usada por Irene, ampliando o alcance do conflito.

Um thriller independente que aposta no essencial
Visualmente, Matar. Vingar. Repetir utiliza uma abordagem simples, baseada em cenários cotidianos como lanchonetes, estradas e casas suburbanas. A cinematografia reforça o contraste entre esses espaços comuns e a premissa de ficção científica.
A trilha sonora sintetizada de Paul Koch acompanha essa proposta, criando uma atmosfera que conecta o drama humano à repetição quase mecânica das viagens entre universos.
A montagem também desempenha papel importante ao transitar entre diferentes realidades sem explicações excessivas, permitindo que o espectador compreenda as mudanças por meio de detalhes visuais.
Crítica de Matar. Vingar. Repetir: vale à pena assistir o filme no HBO Max?
Um final que evita respostas fáceis
Ao se aproximar da conclusão, o filme mantém o ritmo sem recorrer a explicações tardias sobre o funcionamento do multiverso. Em vez disso, a narrativa permanece centrada nas decisões de Irene e Mia.
Os irmãos McManus optam por um desfecho aberto, que evita oferecer respostas definitivas. A história sugere que, em um universo com infinitas possibilidades, cada personagem precisa encontrar uma versão da realidade na qual consiga seguir em frente.
Com essa abordagem, Matar. Vingar. Repetir constrói um thriller de ficção científica que utiliza uma premissa de gênero para explorar trauma, escolha e consequências — temas que permanecem mesmo quando a história atravessa diferentes universos.