Disponível no Prime Video, a animação francesa Mars Express chega como uma das experiências mais interessantes da ficção científica recente, combinando investigação policial, especulação tecnológica e um universo visual que chama atenção desde os primeiros minutos. Ambientado no século XXIII, o longa acompanha dois detetives particulares em Marte, agora completamente colonizado e industrializado, enquanto tentam desvendar um assassinato que rapidamente se transforma em algo maior, envolvendo conspirações, inteligência artificial e a própria definição do que significa ser humano. Confira a nossa crítica.
Dirigido e roteirizado por Jérémie Périn, o filme deixa claro, logo de início, que sua maior força está na estética. A animação aposta em traços que dialogam fortemente com o anime japonês, remetendo a obras que marcaram a ficção científica animada nas últimas décadas. O visual é estilizado, fluido e repleto de detalhes, criando um Marte vivo, colorido e ao mesmo tempo opressor, sustentado pela presença constante de androides e sistemas automatizados.
Antes de chegar ao longa-metragem, Périn já havia se destacado na adaptação da HQ LASTMAN e no cultuado videoclipe “Fantasy”, da banda DyE, conhecido pelo uso de terror corporal e imagética perturbadora. Em Mars Express, esse estilo é expandido com mais controle narrativo, mesmo quando o roteiro opta por uma trama densa e carregada de informações.
A história acompanha Aline Ruby, detetive particular, e seu parceiro Carlos, um androide que carrega um passado humano. Ao investigarem o desaparecimento de uma estudante, os dois são lançados em um submundo que envolve o chamado “desbloqueio” de robôs — a remoção ilegal de sua programação de servidão. A partir daí, o filme levanta questões sobre consciência artificial, exploração e hierarquias sociais, usando os androides como uma metáfora direta para desigualdade e preconceito.
As comparações com clássicos do gênero são inevitáveis. Elementos temáticos remetem a Ghost in the Shell e ao imaginário noir futurista de Blade Runner, especialmente na forma como a obra discute identidade e humanidade em um mundo dominado pela tecnologia. Ainda assim, Mars Express não tenta reinventar esses debates, mas sim reorganizá-los dentro de uma narrativa policial direta, que avança de forma linear até revelar uma conspiração de escala global.
No desenvolvimento dos personagens, o filme apresenta escolhas funcionais, ainda que pouco ousadas. Aline se encaixa em arquétipos conhecidos do cinema policial, enquanto Carlos surge como a figura mais interessante, justamente por carregar conflitos ligados à sua condição de androide e à rejeição de sua própria família. Esse contraste ajuda a sustentar o drama em meio à investigação.

Crítica: vale à pena assistir Mars Express no Prime Video?
Outro ponto que se destaca é o uso pontual de terror corporal animado, que remete à filmografia de David Cronenberg, mas sem exageros gráficos. A animação permite explorar conceitos biotecnológicos de forma criativa, ampliando o impacto visual sem afastar o público menos acostumado ao gênero.
Mars Express se consolida como uma ficção científica madura, claramente voltada ao público adulto. É uma obra que aposta mais na atmosfera, nas ideias e no visual do que em reviravoltas fáceis, oferecendo uma experiência que, mesmo exigindo atenção do espectador, recompensa quem se dispõe a mergulhar nesse futuro mecanizado e inquietante.