A estreia de Kaguya: A Princesa Espacial na Netflix apresenta uma releitura contemporânea de um dos contos mais antigos da tradição japonesa. Inspirado em O Conto do Cortador de Bambu, o anime dirigido por Shingo Yamashita opta por deslocar a narrativa para um cenário urbano e digital, conectando a fábula clássica a temas como cultura do streaming, relações parasociais e a forma como jovens constroem sentido para a própria existência em meio à hiperconectividade. Leia a nossa crítica:
Para parte do público, a história de Kaguya já é conhecida por meio de O Conto da Princesa Kaguya, do Studio Ghibli. Ciente do peso dessa comparação, Kaguya: A Princesa Espacial evita o confronto direto com a obra de Isao Takahata ao apostar em um recorte moderno. A trama acompanha Iroha, uma estudante que vive sozinha, dividida entre trabalho e estudos, com pouco suporte familiar. A rotina muda quando uma misteriosa bebê aparece diante de seu apartamento — a princesa Kaguya — que cresce de forma acelerada e passa a questionar o destino que o mito lhe reserva.
Ao rejeitar o papel tradicional que lhe é imposto, Kaguya decide escrever sua própria história. Nesse processo, ela se transforma em streamer e passa a disputar espaço em um universo virtual dominado por batalhas, eventos e grandes personalidades digitais, incluindo a idol Yachiyo. À primeira vista, a escolha pode soar como uma tentativa óbvia de dialogar com o público jovem. No entanto, o filme evita o tom caricato e observa com atenção como a internet se integra de forma orgânica à vida cotidiana dessa geração.
Grande parte da narrativa se desenrola em ambientes de realidade virtual, onde os personagens encontram pertencimento e companhia que muitas vezes não existem fora da tela. A popularidade crescente de Kaguya, incluindo propostas de casamento vindas do chat, é retratada sem julgamento moral. O longa não glorifica nem ridiculariza essas dinâmicas, tratando-as como parte do contexto social em que os personagens estão inseridos.
Uma das inversões mais relevantes da adaptação está no foco narrativo. Diferentemente do conto original, o arco emocional mais consistente pertence a Iroha. Kaguya funciona como um catalisador de mudanças, lembrando a protagonista de que viver não pode se resumir a cumprir obrigações e sobreviver financeiramente. A conexão que transforma Iroha não nasce do sucesso digital, mas do vínculo construído no mundo real, o que confere peso dramático à mensagem central do filme.
Apesar de preservar o tema essencial da história original — a transitoriedade dos relacionamentos e a dor inevitável da despedida —, o roteiro apresenta fragilidades. Subtramas pouco desenvolvidas, como a do irmão desaparecido de Iroha e a presença pouco funcional de suas amigas, comprometem a coesão do conjunto e afetam o ritmo.

Crítica do anime: vale à pena assistir Kaguya: A Princesa Espacial na Netflix?
Visualmente, Kaguya: A Princesa Espacial aposta em um anime 2D tradicional, com apoio pontual de CGI nas cenas de ação. O resultado é consistente e funcional, embora o contraste entre as técnicas seja, em alguns momentos, perceptível demais. Ainda assim, a direção de arte sustenta uma experiência visual envolvente.
No conjunto, o filme se apoia em fórmulas conhecidas e evita riscos maiores, especialmente quando poderia aprofundar seu comentário sobre a cultura digital. Mesmo assim, entrega uma narrativa acessível, sensível e alinhada ao público da Netflix, conquistando espaço como uma adaptação que respeita o espírito do conto original ao traduzi-lo para o presente.