Desde os anos 1970, o cinema encontra no ambiente escolar um espaço recorrente para discutir amadurecimento, disputas sociais e conflitos emocionais. De A Última Sessão de Cinema a As Patricinhas de Beverly Hills, passando por Grease e Meninas Malvadas, o drama adolescente se molda ao seu tempo e reflete as pressões de cada geração. Em Intenções Cruéis (Jane, 2022), destaque atual do Prime Video, a diretora Sabrina Jaglom atualiza esse legado ao deslocar o centro do conflito para o impacto das redes sociais, da competitividade acadêmica e do luto vivido na adolescência. Leia a crítica do filme:
A trama de Jane (2022)
A trama acompanha Olivia (Madelaine Petsch) e Izzy (Chlöe Bailey), duas estudantes do último ano do ensino médio que tentam lidar com a morte de Jane, amiga próxima que faleceu durante as férias de verão. Enquanto a escola retoma sua rotina e a pressão por vagas em universidades de elite cresce, Olivia passa a sentir o peso da competição de forma intensa. É nesse contexto que ela e Izzy decidem usar, de maneira anônima, o antigo perfil de Jane nas redes sociais para expor colegas e professores. O que começa como uma forma de desabafo e vingança rapidamente assume contornos mais perigosos, com consequências que fogem ao controle das protagonistas.
A ideia de retaliação anônima não é inédita no cinema adolescente. Intenções Cruéis dialoga com recursos narrativos já explorados em filmes como Meninas Malvadas, com seu “livro do arraso”, ou Pump Up the Volume, que usava o rádio como voz sem rosto. A diferença aqui está no ambiente digital, em que o alcance e a velocidade das mensagens ampliam os danos. O roteiro acerta ao retratar como o anonimato pode se tornar uma ferramenta opressiva, mas tropeça ao introduzir elementos ambíguos, como visões de Jane e postagens cuja autoria nunca é totalmente esclarecida. Essa indefinição permanece sem resolução clara e enfraquece parte do impacto dramático.
O tom do filme também merece atenção. Ao optar por uma abordagem constantemente sombria, Intenções Cruéis cria a expectativa de uma virada mais radical, seja para o suspense psicológico ou para o terror, algo que nunca se concretiza. Essa escolha torna a experiência densa do início ao fim, sem momentos de respiro, o que pode afastar parte do público, ainda que esteja alinhada aos temas abordados.

Madelaine Petsch sustenta o filme com uma atuação consistente. Sua Olivia é obsessiva, controladora e cada vez mais instável, refletindo a pressão interna de quem tenta manter tudo sob domínio. Chlöe Bailey, por sua vez, confere humanidade a Izzy, evitando que a personagem se torne apenas um contraponto funcional da protagonista. O problema está nos coadjuvantes, pouco desenvolvidos e usados apenas como alvos da conta anônima. A própria Jane, figura central da narrativa, permanece um enigma: o roteiro evita aprofundar quem ela era ou contextualizar sua ausência, reduzindo sua função a um recurso narrativo, quando poderia ser o núcleo emocional da história. Até mesmo Melissa Leo, como a diretora da escola, acaba subaproveitada em um papel periférico.
Crítica: vale à pena assistir Intenções Cruéis no Prime Video?
Apesar dessas limitações, Intenções Cruéis se mostra relevante ao discutir cyberbullying, luto e a pressão por sucesso acadêmico. O filme não busca oferecer soluções fáceis nem distribuir consequências de forma equilibrada, o que pode soar frustrante, mas também dialoga com a realidade desigual retratada. Visualmente cuidadoso e narrativamente envolvente, ainda que irregular, o longa oferece um retrato tenso e atual da experiência adolescente na era digital.