A comédia Imperfeitamente Perfeita (Ella McCay, 2025) marca o retorno de James L. Brooks ao território que ele domina como poucos: histórias centradas em personagens femininas complexas, cercadas por expectativas profissionais, afetivas e sociais que raramente se encaixam de forma harmoniosa. Disponível no catálogo do Disney+ (assista), o filme aposta menos na sátira política tradicional e mais na observação do desgaste emocional provocado pela vida pública. Leia a nossa crítica.
Ambientada em 2008, a narrativa acompanha Ella McCay, uma política idealista que assume repentinamente o cargo de governadora de um estado fictício com traços de Nova York. A escolha temporal não é casual: ao afastar a trama do clima político atual, Brooks cria um cenário menos polarizado, ainda que, por vezes, simplificado. Essa decisão confere ao filme um ar quase anacrônico, aproximando-o mais de clássicos da comédia política do que das discussões contemporâneas sobre poder e comunicação.
No centro da história está a interpretação contida e precisa de Emma Mackey, que constrói uma protagonista competente, mas constantemente desconfortável com o papel que lhe foi imposto. Ella não é retratada como uma líder carismática em ascensão meteórica, e sim como alguém empurrado para a visibilidade antes de estar emocionalmente preparado para ela. Sua insegurança não é tratada como fraqueza dramática, mas como um dado humano diante de um sistema que exige performance constante.
Os personagens ao redor de Ella funcionam como extensões das pressões que ela enfrenta. O mentor político interpretado por Albert Brooks representa o pragmatismo eleitoral que entra em choque com a honestidade da protagonista. Já a tia Helen, vivida por Jamie Lee Curtis, oferece um raro espaço de lealdade e afeto, enquanto o pai irresponsável interpretado por Woody Harrelson reabre feridas familiares que Ella nunca conseguiu resolver.
O núcleo emocional mais consistente do filme, no entanto, está na relação entre Ella e seu irmão Casey. Interpretado por Spike Fearn, ele vive recluso, lidando com ansiedade e rejeitando a ideia de “conserto” que a irmã tenta aplicar a todos ao seu redor. As cenas entre os dois são algumas das mais eficazes do longa, justamente por recusarem soluções fáceis e por tratarem a vulnerabilidade com respeito.
Visualmente, Imperfeitamente Perfeita adota uma abordagem discreta. A câmera permanece próxima dos personagens, privilegiando silêncios, hesitações e diálogos que soam inacabados. O humor surge menos de piadas explícitas e mais do desconforto gerado por coletivas de imprensa truncadas, reuniões improdutivas e interações sociais atravessadas por expectativas irreais.

Crítica: vale à pena assistir Imperfeitamente Perfeita no Disney+?
Se há fragilidades, elas estão no ritmo irregular e na dificuldade de sustentar um arco narrativo claro até o final. Assim como em Como Você Sabe (2010), Brooks constrói um filme de momentos, nem sempre bem costurados. Ainda assim, o conjunto se sustenta pela atenção aos detalhes humanos, pelos diálogos afiados e pela recusa em transformar a política em espetáculo.
No fim, Imperfeitamente Perfeita funciona menos como comentário político e mais como retrato do custo emocional da visibilidade. Ao focar na hesitação, e não no triunfo, o filme oferece uma observação sóbria sobre liderança, exposição pública e a dificuldade de existir fora das expectativas impostas.