Entre os títulos mais assistidos da HBO Max, Imaculada (Immaculate, 2024) aposta no horror religioso para discutir fé, poder e controle institucional. Dirigido por Michael Mohan e estrelado por Sydney Sweeney, que também atua como produtora, o longa parte de um roteiro de Andrew Lobel para atualizar temas clássicos do gênero sob uma lente contemporânea, marcada por debates sobre autonomia feminina e dogmas religiosos. Leia a crítica do filme de terror:
A trama de Immaculate
A trama acompanha Cecília, uma jovem noviça americana que viaja para a Itália a fim de concluir seus votos em um convento isolado. Desde sua chegada, o filme deixa claro que aquele espaço é regido por hierarquias rígidas e por uma leitura da fé profundamente associada ao sacrifício. A máxima repetida pela madre superiora, “sofrimento é amor”, funciona como chave simbólica para entender o que está em jogo: a normalização da dor como virtude espiritual.
Imaculada explora uma iconografia católica que há décadas serve de matéria-prima para o cinema de horror. Crucifixos, relíquias sagradas e rituais ganham contornos ameaçadores à medida que Cecília passa a ser observada, vigiada e, sobretudo, controlada. Quando sua gravidez é descoberta, mesmo diante da ausência de qualquer relação sexual, a reação da instituição não é de acolhimento, mas de apropriação. O que poderia ser visto como um milagre se transforma rapidamente em instrumento de dominação.
Nesse sentido, o filme se aproxima de uma alegoria direta sobre o uso da religião como mecanismo de poder sobre o corpo feminino. A recusa em permitir que Cecília escolha um médico, saia do convento ou tome decisões sobre si mesma reforça o caráter opressivo do ambiente. Não há forças sobrenaturais evidentes guiando os acontecimentos; o horror nasce da ação humana, de figuras religiosas que assumem o papel de algozes sob o pretexto da fé.
Michael Mohan constrói essa atmosfera com uma direção que privilegia o choque visual e referências claras ao horror europeu dos anos 1970, especialmente ao giallo italiano. O terceiro ato abandona qualquer pretensão de sutileza e investe em violência gráfica, exagero performático e imagens que flertam com o cinema splatter. É nesse momento que Imaculada se assume plenamente como um filme de gênero, interessado mais no impacto do que na ambiguidade psicológica.
Sydney Sweeney sustenta o longa com uma atuação que evolui do recato à fúria. Sua Cecília começa como uma figura submissa, moldada para obedecer, mas encontra no desespero o combustível para reagir. A atriz já demonstrou em outros trabalhos facilidade para transitar entre vulnerabilidade e explosão emocional, e aqui essa transformação é levada ao limite, especialmente no desfecho, quando o filme aposta na catarse violenta.

Embora o discurso central seja claro e pertinente, Imaculada nem sempre consegue alcançar o refinamento que parece almejar. Sustos previsíveis e escolhas estéticas convencionais enfraquecem parte do impacto, impedindo o longa de se aproximar de obras mais psicológicas do horror recente. Ainda assim, quando abraça sua veia mais extrema e assume a provocação sem reservas, o filme se torna uma experiência envolvente.
Crítica: vale à pena assistir Imaculada?
Imaculada não oferece respostas espirituais nem reflexões teológicas profundas. Seu interesse está em expor a dor, a hipocrisia e os limites da obediência cega. Para quem busca um horror direto, simbólico e alinhado a discussões atuais, o filme encontra força justamente naquilo que mais incomoda.