Atualmente disponível no catálogo da Netflix, o filme “Herói por Encomenda” (Freelance, 2023) se propõe a ser uma comédia de ação despretensiosa, mas acaba servindo como um exemplo didático de desperdício. Dirigido por Pierre Morel (o mesmo de “Busca Implacável”), e estrelado por John Cena e Alison Brie, a produção esgota seu potencial em uma narrativa preguiçosa, com personagens totalmente desinteressantes e sequências de ação que falham em gerar qualquer emoção ou riso de canto de boca.
A premissa até tinha ingredientes para um entretenimento divertido: Mason Pettits (John Cena), um ex-soldado das forças especiais frustrado com sua nova carreira como advogado, aceita um trabalho simples como segurança particular – nada de novo, até aí. Sua missão é proteger a jornalista Claire Wellington (Alison Brie) durante uma entrevista exclusiva com o ditador de um país fictício da América do Sul, Paldônia. O problema começa quando um golpe de estado explode no local, forçando a dupla e o próprio ditador Juan Venegas (vivido por Juan Pablo Raba) a fugirem pela selva, com mercenários atrás deles.
O que poderia ser uma sátira sobre intervencionismo estrangeiro, jornalismo sensacionalista ou mesmo uma aventura com comédia no estilo “A Múmia” (aquele com Brenda Fraser e Rachel Weisz), se perde em uma execução surpreendentemente sem sal. A química entre os carismáticos Cena e Brie é praticamente inexistente. Ele interpreta o herói com uma expressão permanentemente confusa, enquanto ela parece desconectada do cenário ao seu redor. Os momentos que tentam ser engraçados soam como tentativas isoladas em um roteiro (escrito por Jacob Lentz) que não desenvolve o humor de forma orgânica.

Pierre Morel, que já mostrou uma condução frenética no francês “B13 – O Distrito”, aqui entrega uma direção sem inspiração alguma, pra não dizer apagada. As cenas de ação são coreografadas e editadas da pior forma possível, com perseguições na selva e tiroteios que não conseguem elevar o ritmo ou criar tensão. A representação de Paldônia e sua cultura é tão rasa que o país serve apenas como pano de fundo exótico e sem identidade, reduzido a clichês visuais que os estrangeiros tenham com países do Sul Global.
“Herói por Encomenda” também peca ao subutilizar seu elenco coadjuvante. Christian Slater (Mr. Robot) aparece brevemente como o ex-chefe de Mason, sem impacto, e Alice Eve é totalmente desperdiçada no papel da esposa negligenciada do protagonista. A dinâmica entre os personagens, que deveria evoluir durante a fuga, permanece estagnada, com Claire relegada frequentemente ao papel de “donzela em perigo” resgatada por Mason.
Em sua tentativa de ser um passatempo fácil, “Herói por Encomenda” acaba se tornando um filme totalmente entediante. Não tem a diversão, a inteligência e a competência de um thriller de ação eficiente. O resultado é um produto que parece ter sido montado em linha de produção, carecendo de alma, risos e propósito. Para quem gosta do John Cena (como eu), há opções muito mais divertidas no currículo do ator. Para quem busca uma comédia de ação realmente envolvente na Netflix, esta “encomenda” é, infelizmente, um produto com defeito de fabricação.