Opinanerd

Gossip Girl (2021) é a prova de que algumas coisas só funcionam no passado?

Nova versão da clássica série falha em estabelecer sua própria identidade

Alec Moreira

1 nov, 2021

Famosa entre adolescentes e jovens adultos, Gossip Girl conquistou seu lugar no coração de uma geração por compartilhar um retrato da realidade atípica da maioria da população. Regada ao luxo e ao exagero, era uma árdua missão não ser minimamente cativado pelos problemas fúteis e figurinos belíssimos que ditaram moda por um bom tempo das telinhas ao cotidiano. Através de personagens marcantes e inesquecíveis, o seriado conseguiu conquistar sua imortalidade, e dessa vez, a continuidade de seu legado.

A confirmação do reboot de Gossip Girl ultrapassou as ruas de Manhattan e chacoalhou a comunidade de fãs adormecidos por cada canto do globo, atraiu olhares curiosos para quem seria a nova abelha rainha da Constance Billard School e a misteriosa garota do blog. Afinal, o que mais poderíamos esperar do lugar mais cheios de segredos de Nova York?

Com a promessa de diversidade, inclusão e bastante polêmica, o reboot — assim como a obra original — também é ambientado na famosa Nova York, com o mesmo glamour tradicional que marcou a antiga série. Nós não contamos com os rostos caricatos e marcantes que fizeram história em nossos corações, embora haja inúmeras menções honrosas a eles em detalhes que servem para aquecer o coração de todos que acompanharam a versão original, mas a possibilidade do elenco original aparecer continua válida, especialmente na segunda temporada que estreia em novembro através da HBO Max.

Tudo mudou desde que Dan Humphrey (Penn Badgley) se revelou como o criador do site de fofocas mais amado e odiado de Manhattan… Ou quase tudo. As escadarias do The Metropolitan Museum of Art — carinhosamente apelidado de 'Mets'— continuam sendo ocupadas por uma abelha rainha e seus zangões fiéis. Agora acompanhamos o reinado de sucesso e fama de Julian Calloway (Jordan Alexander) e a nova versão de Blair Waldorf (Leighton Meester).

Julian, além de ser a garota mais popular do Ensino Médio, é também uma digital influencer, profissão essa que é bem característica da nossa geração. Com a vida perfeita e possuindo amigos e seguidores leais, Julian divide um segredo com Zoya (Whitney Peak), a nova aluna transferida de Buffalo para Constance. Mas o que a Queen J poderia ter em comum com uma simples e comum caloura?

Diferentemente de como as coisas eram no passado, quando controladas por Dan Humphrey, agora a Gossip Girl não passa de um ícone ofuscado e esquecido no tempo. Nessa nova era de reis e rainhas com total controle e falta de piedade, um grupo de professores encontra uma possibilidade de resistência na maior fofoqueira da cidade de Manhattan, e assim, assumem sua identidade.


Descobrimos que Zoya é na verdade a meia-irmã de Julian — e órfã de mãe, pois ela morreu durante seu nascimento —, separadas por uma rixa familiar envolvendo os pais das duas garotas. As meninas vivem uma irmandade secreta, diferentemente do que elas alegam e forjam para seus familiares e amigos. Ambas mantiveram contato por dois anos seguidos até que a mudança de Zoya fosse oficial, e com a ajuda da sua irmã influente e filha de um generoso músico premiado, Julian consegue fornecer uma bolsa de estudo para uma das escolas mais renomadas de Nova York para a irmã (sem que ela saiba).

O primeiro choque de gerações acontece nesse momento. Os professores precisam saber quem eleger como alvo, qual rede social utilizar para conseguir chamar a atenção necessária e, especialmente, como 'falar a língua deles'. Depois de alguns testes de tentativa e erro, eles estão prontos para participar da batalha social, dessa vez, com uma página no Instagram e informações que só eles conseguiriam ter acesso. A grande explosão ocorre quando os professores resolvem revelar a verdade entre as duas irmãs, e os estilhaços dessa primeira mentira criam rachaduras nos elos de confiança de ambas e seus respectivos colegas.

E assim acreditamos que a nova era de conflito se inicia, mas, na verdade, as problemáticas têm soluções rápidas e passam a sensação de um aproveitamento insuficiente, o que chega a ser frustrante, pois um dos ingredientes da fórmula tão amada de Gossip Girl é o caos. O reboot não falha em levantar discussões sobre temas relevantes, tais como descoberta, traição, poliamor, sexualidade, depressão, entre outros. Porém, peca na dosagem que é mal equilibrada, o que torna a série um excessivo discurso sobre pautas educativas, a falta de naturalidade dos eventos com os temas sensíveis acaba pesando em alguns momentos.

É possível perceber que houve uma linha de respeito bem evidente com a versão de anterior, que aparece em algumas doses homeopáticas no início, e de forma mais significativa nos últimos episódios, resgatando e desenvolvendo personagens que só tivemos menção na série original, além de ressignificar alguns símbolos marcantes dos quais já estávamos habituados, auxiliando na transição entre as duas versões. Outro ponto forte que não deixa nada a desejar é no quesito figurino. Com grandes marcas por trás das vestimentas de alta costura, a produção continua sendo referência e um colírio para os olhos.

Apesar da justificativa apresentada pelo roteiro, a escolha de por professores — adultos — capacitados para governar uma página de fofoca dos próprios alunos do submundo da internet foi, na verdade, fraca e imatura. Embora a série deseje fortalecer a ideia de que os alunos possuem o mundo aos seus pés, isso acaba totalmente com o simbolismo da figura de autoridade, como se tais profissionais estivessem lecionando em uma das escolas mais renomadas de Nova York por puro "favor" ou "boa vontade".

A série anda apresentando dificuldade em se mostrar original e, principalmente, surpreendente. Com personagens fracos, se torna quase impossível não fazer uma constante comparação com o que foi visto nas seis temporadas passadas, afinal, herdar um título de tanto peso quanto o de Gossip Girl não é receita de sucesso nos dias de hoje.

Deixe um comentário