Takashi Yamazaki, de Godzilla Minus One Takashi Yamazaki, de Godzilla Minus One

Godzilla Minus One e o trauma da guerra

Existe uma diferença muito grande na forma como os filmes de guerra são retratados em Hollywood e em outros países. Enquanto os Estados Unidos veem a maioria das guerras com orgulho e heroísmo, países que fizeram parte do grupo “perdedor” geralmente tratam o tema de uma forma mais pesada e traumática. Godzilla Minus One é o novo filme da franquia do famoso monstro, que resgata muito do longa original ao tratar dos traumas da guerra e da ameaça nuclear.

Dirigido e escrito por Takashi Yamazaki, Godzilla Minus One conta a história de Kōichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), um piloto kamikaze durante a Segunda Guerra Mundial que desiste de cumprir sua missão e acaba pousando numa ilha atacada pelo monstro gigante. Mais tarde, ao voltar da guerra traumatizado, ele tem que cuidar de uma mulher com sua filha enquanto a ameaça do kaiju se aproxima de Tóquio.

Os melhores filmes do Godzilla nunca são sobre o monstro. Criado como uma metáfora e para relembrar as dores da Segunda Guerra, o famoso monstro era usado para exorcizar os demônios da culpa e da desolação que o Japão sofreu após o final do conflito. Minus One reconta essa história mostrando um país já destruído pelos bombardeios norte-americanos e um povo quebrado e envergonhado. O protagonista do longa é perturbado não somente pela visão do monstro matando as pessoas que ele devia proteger, mas também pelas culpa, vergonha e tristeza de alguém que voltou da guerra como perdedor e fracassado. Para os mais familiarizados com o cinema hollywoodiano, lembra muito o clima de filmes que retratam a guerra do Vietnã, a única que foi realmente traumática para o povo.

Temos aqui um longa não só antiguerra, mas também antigoverno, pois o povo não acredita mais nos seus governantes, que os meteram em uma guerra sem sentido que só trouxe desgraça. O povo foi deixado de lado tanto na guerra como também nessa nova ameaça. Mas o que parece ser um novo castigo para os japoneses, acaba sendo uma nova oportunidade de redenção e de fazer a coisa certa. O filme não é nada sutil em jogar esse discurso “meio liberal” na sua cara, o que me deixa até curioso ao lembrar que alguns estavam chamando o filme de “lacrador”. Apesar desse discurso contra o Estado, é muito bonito ver os ex-militares se unindo contra o monstro para poder proteger seu país em vez de invadir os outros.

Tecnicamente, o longa é impecável. As cenas em que o Godzilla causa destruição são uma delícia de se assistir na maior tela e no melhor som possível. A tensão é muito bem-feita, principalmente porque o filme tem personagens muito carismáticos, colocando mais aspectos emocionais em jogo. Outro momento em que Minus One não é nada sutil são nas cenas em que o monstro usa seu famoso raio radioativo. Fica claro que o diretor se inspirou nas filmagens de testes nucleares para mostrar o impacto da explosão. Além disso, o tiro sempre deixa um cogumelo enorme, exatamente igual àqueles causados pela explosão da bomba nuclear.

Apesar de ser um longa de monstro gigante feito para divertir, não é difícil ficar chocado com tanto poder que, na verdade, não é nem um pouco fruto de ficção científica. Toda essa imagética ainda é reforçada pelo maravilhoso design de som, que vibra as cadeiras, e a trilha sonora épica que faz referência ao tema do longa original. É uma pena que a sua distribuição esteja tão limitada no Brasil, sendo difícil achar uma sala IMAX para apreciá-lo em toda sua glória.

Godzilla Minus One é um filme sobre os traumas da guerra e como um povo quebrado pode se unir para consertar não só seu país mas a sua honra. Recheado de personagens carismáticos (incluindo nosso querido kaiju), trilha sonora arrebatadora e direção impecável, ele é, com certeza, uma das melhores produções cinematográficas de 2023. Às vezes é um pouco brega demais ou nada sutil, mas isso não diminui o fato de que é facilmente o melhor da franquia dos que já assisti.

No entanto, as cenas finais acabam diminuindo um pouco do drama e do impacto dessa história por tentar cravar uma continuação, o que me parece ter cara de decisão da produtora. Mas a narrativa contada é perfeitamente montada para lhe tirar da cadeira com a tensão e o risco para os personagens envolvidos. Vale demais ver na melhor sala de cinema possível.

SPOILER

Não posso deixar de comentar que esse longa é como um Independence Day reverso, pois o ufanismo é trocado por uma crítica ferrenha aos governantes e, em vez de um suicida orgulhoso no final, temos um protagonista que valoriza sua vida. Para ele, a maior honra não é morrer pelo seu país, mas sim viver por aqueles que ama.