A série Filhos do Chumbo (Lead Children, ou Olowiane dzieci no original), produção polonesa recém-adicionada ao catálogo da Netflix em 2026 (assista), se insere em um subgênero cada vez mais recorrente no streaming: o dos dramas baseados em fatos reais que expõem crimes ambientais, negligência estatal e silêncios institucionais. Ambientada na Polônia comunista da década de 1970, a minissérie de seis episódios resgata um episódio pouco conhecido fora do país, mas de impacto duradouro para a população de Szopienice, distrito industrial da Silésia. Confira a nossa crítica da série.
A história real que inspira a série polonesa
A trama acompanha a médica Jolanta Wadowska-Król, interpretada por Joanna Kulig, que começa a desconfiar de uma suposta epidemia de anemia entre crianças que vivem próximas a uma fundição de chumbo. O alerta surge de forma quase casual, quando uma criança desmaia durante um festival local. A partir daí, Jolanta passa a cruzar dados clínicos, visitar casas da região e examinar pacientes ignorados pelo sistema de saúde, até identificar o verdadeiro problema: envenenamento por chumbo em larga escala, provocado pela atividade industrial da fundição que sustenta economicamente a cidade.
O conflito central de Filhos do Chumbo não está apenas na descoberta da contaminação, mas na reação do Estado diante dela. As autoridades locais, pressionadas pela visita iminente de Leonid Brezhnev e pelo desejo de preservar a imagem do regime, tentam abafar o escândalo a qualquer custo. O oficial de segurança Hubert Niedziela, vivido por Michał Żurawski, representa essa engrenagem repressiva que transforma a busca por justiça em um ato de risco pessoal. Prisões arbitrárias, intimidações e isolamento profissional passam a fazer parte da rotina da protagonista.
A série deixa claro que o silêncio não é imposto apenas pela força. Muitos moradores resistem às investigações por medo de perder seus empregos na fundição, criando um ambiente de ambiguidade moral que reforça o peso dramático da narrativa. O próprio casamento de Jolanta com Zbyzek, médico do hospital local, é tensionado pela escolha entre conveniência e enfrentamento, um dilema que atravessa toda a história.
Dirigida por Maciej Pieprzyca, a produção aposta em uma encenação contida, com fotografia acinzentada e uma reconstrução de época que reforça a sensação de desgaste físico e social. As chaminés da usina, a lama constante e os interiores modestos ajudam a construir um cenário onde a contaminação parece onipresente, mesmo quando não é explicitamente mencionada. A comparação com Chernobyl é inevitável, não apenas pela estética, mas pela forma como o roteiro articula burocracia, omissão e consequências humanas.

Crítica de Filhos do Chumbo: vale à pena assistir a série na Netflix?
Joanna Kulig sustenta a minissérie com uma atuação centrada na persistência. Sua Jolanta evita discursos grandiosos e heroísmo explícito, funcionando mais como uma profissional que se recusa a aceitar explicações fáceis. Essa abordagem aproxima a série de outros títulos do chamado “drama da contaminação”, como Erin Brockovich e Dark Waters, ainda que Filhos do Chumbo siga uma estrutura mais tradicional e sem grandes variações de ritmo.
Com seis episódios de uma hora, o tom pesado pode se tornar exaustivo em uma maratona, mas a escolha narrativa reforça o impacto do descaso prolongado vivido pela população. Ao final, Filhos do Chumbo se afirma menos como entretenimento e mais como registro histórico dramatizado, lembrando que, mesmo sob regimes autoritários, mudanças muitas vezes começam com indivíduos dispostos a enfrentar o silêncio — ainda que o custo pessoal seja alto.