A série irlandesa De Belfast ao Paraíso (How to Get to Heaven from Belfast) marca o retorno de Lisa McGee ao universo das amizades femininas atravessadas pelo tempo, agora em um registro que mistura comédia dramática e mistério policial. Lançada pela Netflix, a produção parte de um evento traumático ocorrido na adolescência para investigar como segredos moldam relações adultas — tema que dialoga diretamente com a obra mais conhecida da autora, Derry Girls. Leia a nossa crítica.
A narrativa começa com um prólogo inquietante: quatro adolescentes fogem de uma casa em chamas, selando um pacto silencioso que as acompanhará por décadas. Vinte anos depois, apenas três seguem em contato. Saoirse (Roisin Gallagher), Robyn (Sinéad Keenan) e Dara (Caoilfhionn Dunne) recebem a notícia da morte de Greta (Natasha O’Keeffe), a quarta integrante do grupo, com quem romperam laços após o incidente do passado. O reencontro para o velório, em uma cidade do interior, funciona como gatilho para a retomada de uma culpa coletiva que nunca foi resolvida.
McGee estrutura a série como uma investigação conduzida por personagens que claramente não estão preparadas para ela. A morte de Greta — oficialmente um acidente doméstico — levanta dúvidas desde o início, especialmente quando detalhes contraditórios surgem e personagens suspeitos entram em cena, como o marido policial Owen (Emmett J. Scanlan) e a mãe controladora Margo (Michelle Fairley). O mistério avança em paralelo aos conflitos pessoais das protagonistas, que usam a busca por respostas como forma de escapar, ainda que temporariamente, de vidas marcadas por frustração, cansaço e escolhas mal resolvidas.
Entre as três, Saoirse se destaca como o eixo emocional e narrativo. Escritora de uma série policial de sucesso, ela vive uma crise criativa e afetiva que espelha o próprio enredo de De Belfast ao Paraíso. A personagem verbaliza temas centrais da obra, como o peso das decisões tomadas ainda muito jovem e o impacto silencioso das rupturas. Robyn, sobrecarregada pela maternidade, e Dara, consumida pela culpa, completam um trio que funciona melhor quando está em movimento — discutindo, errando e se provocando mutuamente.
O principal problema da série está no excesso de caminhos narrativos. Ao longo dos oito episódios, a trama sugere sociedades secretas, corrupção institucional, identidades falsas e conspirações que raramente se conectam de forma clara. Esses desvios acabam diluindo o impacto do mistério central e roubam espaço da dinâmica entre as protagonistas, que é, de fato, o elemento mais consistente da produção.

Crítica de De Belfast ao Paraíso: vale à pena assistir à série na Netflix?
Ainda assim, o humor irlandês permanece presente, sustentado por diálogos rápidos, ironia constante e uma rivalidade cultural explorada com naturalidade. O elenco central sustenta o tom híbrido da série, equilibrando momentos cômicos e situações de maior tensão sem grandes rupturas.
De Belfast ao Paraíso não alcança a precisão narrativa de Derry Girls, mas reafirma o interesse de Lisa McGee em examinar como amizades formadas na juventude continuam moldando identidades adultas. Mesmo com uma trama irregular, a série se mantém relevante pelo olhar atento sobre vínculos femininos, memória e culpa — elementos que dão sentido à jornada dessas três mulheres em busca de respostas que talvez nunca tragam alívio completo.