Criatura Voraz (It Feeds, 2025) parte de um desafio comum ao terror contemporâneo: equilibrar impacto imediato, desenvolvimento dramático e coerência narrativa. Dirigido e roteirizado por Chad Archibald, o filme — lançado internacionalmente como It Feeds — figura entre os títulos mais assistidos da HBO Max, chamando atenção por sua proposta que mistura horror sobrenatural, trauma familiar e drama psicológico. Leia a crítica.
Desde os primeiros minutos, Criatura Voraz deixa claro seu caminho. A abertura é acelerada e concentra boa parte das informações essenciais: conhecemos Cynthia Winstone, uma médium relutante interpretada por Ashley Greene, sua filha Jordan (Ellie O’Brien) e Riley, uma adolescente marcada por sinais físicos e emocionais de algo que ultrapassa a compreensão racional. Em cerca de quinze minutos, o longa estabelece seus conflitos centrais, apresenta a ameaça sobrenatural e define as motivações de seus personagens. Essa escolha narrativa é eficaz em termos de impacto, mas também limita o espaço para surpresas ao longo do restante da trama.
A criatura que dá título ao filme funciona como metáfora direta do trauma. Trata-se de uma entidade que se alimenta do sofrimento humano e transita entre vítimas fragilizadas, especialmente jovens em situação de vulnerabilidade. A dinâmica entre Cynthia e Jordan reforça essa leitura: a mãe carrega o peso da culpa e do luto pela morte do marido, enquanto a filha questiona a recusa constante em ajudar outras pessoas, enxergando nisso uma forma de covardia emocional. Esse embate gera os momentos mais consistentes do roteiro, mesmo quando os diálogos recorrem a frases previsíveis.
Visualmente, Criatura Voraz se sustenta com competência. A fotografia de Jeff Maher aposta em enquadramentos fechados e na fragmentação dos espaços, refletindo o estado mental da protagonista. Ambientes são apresentados como compartimentos isolados, reforçando a sensação de aprisionamento psicológico. O design da criatura, criado por Daniella Pluchino, também merece destaque: sua presença física resiste a closes prolongados e evita o desgaste comum a muitos filmes do gênero que escondem o monstro por insegurança estética.
As atuações contribuem para manter o interesse. Ashley Greene constrói uma Cynthia marcada pelo medo de reviver perdas, enquanto Ellie O’Brien entrega uma Jordan que oscila entre ingenuidade e confronto direto. A relação entre as duas é o eixo dramático do filme, sustentando a narrativa mesmo quando o suspense diminui. Personagens secundários, como o pai de Riley, vivido por Shawn Ashmore, funcionam mais como instrumentos da trama do que como figuras plenamente desenvolvidas, ainda que tragam reflexos interessantes sobre desespero e impotência.

Crítica de Criatura Voraz: vale à pena assistir ao filme na HBO Max?
O problema maior surge no ato final. Ao optar por uma representação literal da batalha psicológica dentro da mente da criatura, o filme abandona parte da sobriedade construída até então. A encenação da confrontação final rompe com o tom anterior e aposta em soluções visuais e narrativas que destoam da proposta inicial. A mensagem sobre enfrentar os próprios demônios permanece clara, mas o caminho escolhido para expressá-la enfraquece o impacto emocional acumulado.
Criatura Voraz não reinventa o terror sobrenatural, nem pretende fazê-lo. Seu mérito está na execução segura, na atenção aos personagens e na capacidade de criar uma atmosfera consistente durante boa parte do tempo. Mesmo com um desfecho irregular, o filme se estabelece como um exercício sólido de gênero, capaz de agradar fãs de histórias sobre possessão, luto e heranças emocionais. Para quem busca sustos funcionais e um drama direto, trata-se de uma experiência que cumpre o que promete, ainda que deixe a sensação de que poderia ir além.