A Netflix adicionou ao catálogo o thriller espanhol Corta-fogo (Cortafuego ou Firebreak, 2026), dirigido por David Victori, apostando em uma narrativa que combina drama familiar, mistério e comentário social. Ambientado em meio a um incêndio florestal fora de controle, o longa utiliza o suspense psicológico para refletir sobre luto, paranoia e a crescente desconfiança entre as pessoas em contextos de crise. Leia a crítica.
O que acontece no filme espanhol
A história começa de forma direta: uma falha técnica provoca um incêndio em uma área florestal, enquanto uma família chega a uma cabana isolada para organizar a venda do imóvel. O local carrega memórias recentes da morte de Gus, marido de Mara, e a visita funciona como um ritual de encerramento. No entanto, a situação se agrava quando Lide, filha de Mara, desaparece em meio ao caos causado pelo avanço do fogo. A partir daí, Corta-fogo se estrutura como um thriller de mistério que avança em poucas horas diegéticas, explorando decisões tomadas sob pressão extrema.
Victori conduz o filme com foco nos personagens e em suas reações diante do medo. O incêndio funciona tanto como ameaça concreta quanto como metáfora, ampliando tensões que já existiam dentro do grupo. A interrupção das buscas oficiais pela criança, devido ao risco do fogo, intensifica o conflito e leva Mara a suspeitar do vizinho Santi, guarda florestal responsável pelo aceiro que separa a cabana das chamas. Essa suspeita move a narrativa para um território mais psicológico, no qual a linha entre intuição, trauma e paranoia se torna cada vez mais frágil.
O roteiro evita transformar a trama em um simples “quem foi o culpado”, optando por discutir como o medo e a insegurança podem direcionar a raiva para alvos convenientes. O desaparecimento da criança deixa de ser apenas um mistério criminal e passa a refletir um cenário social mais amplo, marcado pela dificuldade de confiar no outro, mesmo em comunidades pequenas e aparentemente seguras.
Do ponto de vista técnico, Corta-fogo aposta em câmera na mão e em variações de enquadramento para transmitir instabilidade. Essa escolha reforça a sensação de urgência, embora em alguns momentos torne a experiência visual excessivamente agitada. A duração de cerca de 1h47 permite que o filme desenvolva seus conflitos sem grandes desvios, ainda que o primeiro ato avance de forma mais contida em comparação ao restante da narrativa.
O elenco sustenta bem a proposta. Belén Cuesta constrói uma protagonista movida pelo luto e pela obsessão, enquanto Joaquín Furriel e Diana Gómez representam perspectivas mais racionais diante do colapso emocional. Já Enric Auquer se destaca ao interpretar um personagem ambíguo, cuja presença alimenta tanto a desconfiança quanto a dúvida do espectador.
Crítica: vale à pena assistir Corta-fogo na Netflix?
Corta-fogo se apresenta como um thriller psicológico espanhol que vai além do suspense imediato. Ao usar um desastre natural como pano de fundo, o filme propõe uma reflexão sobre como crises expõem fragilidades individuais e coletivas. Mesmo com escolhas narrativas que podem dividir opiniões no desfecho, a obra se sustenta como uma experiência focada em personagens e em temas atuais, reforçando a aposta da Netflix em produções europeias voltadas ao drama e ao mistério.