Disponível no Prime Video, Barreda: Marido, Pai, Assassino revisita um dos crimes familiares mais conhecidos da história recente da Argentina. Dirigido por Daniela Goggi, o filme dramatiza o caso de Ricardo Barreda, dentista de La Plata condenado pelo assassinato da esposa, da sogra e das duas filhas, em 1992. Mais do que reconstruir o crime, porém, a produção tenta questionar a narrativa que transformou o assassino em uma espécie de vítima das circunstâncias.
Uma chocante história real
O caso ganhou contornos particulares porque ocorreu em uma época na qual conceitos como feminicídio ainda não ocupavam o debate público como hoje. A violência contra mulheres dentro de casa frequentemente era tratada como um problema privado ou enquadrada pela imprensa como crime passional. Nesse contexto, a defesa de Barreda ajudou a construir a imagem de um homem supostamente humilhado pela própria família, criando uma justificativa para uma violência que não poderia ser compreendida dessa maneira.
A principal contribuição do filme está justamente em confrontar essa versão. Embora Ricardo seja inevitavelmente o centro da história, Goggi procura recuperar a presença das quatro mulheres assassinadas, personagens que durante décadas permaneceram em segundo plano diante da notoriedade alcançada pelo criminoso. A produção imagina a rotina daquela família e apresenta uma casa marcada por silêncios, ressentimentos e distanciamento emocional.
A narrativa alterna dois períodos. De um lado, acompanha a prisão e o julgamento de Barreda; de outro, retorna aos meses anteriores ao massacre para mostrar a deterioração das relações familiares. O advogado interpretado por Marcelo Subiotto trabalha para apresentar seu cliente como alguém constantemente desrespeitado pelas mulheres da casa, explorando inclusive o apelido pejorativo que se tornou associado ao caso.

O filme, entretanto, sugere outra interpretação. A rejeição sofrida por Barreda não aparece necessariamente como uma forma de abuso contra ele, mas como consequência da convivência difícil com um homem emocionalmente distante, autoritário e pouco disposto a estabelecer vínculos saudáveis. A produção também relaciona esse ambiente ao machismo e aos valores conservadores da sociedade argentina do início dos anos 1990.
Mercedes Morán, Carla Peterson, Maite Lanata e Margarita Páez ajudam a deslocar o foco para Elena Arreche, Gladys McDonald, Cecilia e Adriana. Suas personagens são apresentadas como mulheres que possuíam projetos e relações próprias, ainda que suas possibilidades de romper com aquele casamento e aquela estrutura familiar fossem limitadas pelas condições sociais e econômicas da época.
Luis Machín é o principal destaque de Barreda: Marido, Pai, Assassino. Sua atuação evita transformar Ricardo em uma figura explosiva ou caricatural. O personagem é construído com frieza, rigidez e poucas demonstrações emocionais, tornando sua presença progressivamente desconfortável.

Crítica do filme: vale a pena assistir Barreda: Marido, Pai, Assassino no Prime Video?
A estrutura do longa por vezes se aproxima demais do formato convencional de um drama de tribunal, o que reduz parte da complexidade psicológica que a história poderia explorar. Ainda assim, a escolha de não oferecer uma explicação simples para o massacre funciona a seu favor.
No fim, Barreda: Marido, Pai, Assassino não tenta solucionar o mistério de por que Ricardo Barreda matou sua família. O filme propõe uma questão mais ampla: até que ponto uma sociedade pode contribuir para normalizar comportamentos de controle, misoginia e violência dentro do ambiente doméstico? Ao desmontar a imagem de Barreda como vítima e devolver alguma centralidade às mulheres assassinadas, a produção encontra sua principal razão de existir.
O Homem que Sussurra (Netflix) Explicado: Guia Completo do Filme