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Assassino Por Acaso (2024) | Crítica do filme com Glen Powell

“Assassino Por Acaso” (Hit Man), filme do diretor Richard Linklater, é uma das boas surpresas que você encontrará no streaming. Mais do que um simples thriller, o longa é uma engenhosa mistura de comédia romântica, suspense neo-noir e estudo de personagem, sustentado por um roteiro legal e atuações carismáticas de Glen Powell (também co-roteirista) e Adria Arjona.

Com base em um artigo real da Texas Monthly, o roteiro de Linklater e Powell constrói uma narrativa ficcional cheia de humor, identidade e desejo. A premissa segue Gary Johnson (Glen Powell), um professor de psicologia universitário solitário e de vida pacata, que tem um bico incomum: ele trabalha disfarçado para a polícia de Nova Orleans como um falso assassino de aluguel em operações. Seu talento para criar personagens convincentes – um psicopata de terno, um matador russo excêntrico – rende inúmeras prisões. No entanto, sua vida vira de cabeça para baixo quando Madison (Adria Arjona) entra em cena, uma mulher que procura seus serviços para eliminar o marido abusivo. Gary, sob sua persona mais cativante (“Ron”), a convence a desistir do plano, e a atração é imediata. Assim, tem início um perigoso e hilário jogo de dupla identidade.

A metamorfose de Gary

O núcleo do filme é a exploração da identidade. Gary, o “gato pessoa” que evita conflitos, encontra na persona do assassino fictício Ron a liberdade para ser tudo o que não é: confiante, ousado, um “cachorro pessoa”. O relacionamento com Madison se desenvolve sob esta fachada, criando uma comédia de erros de alto risco. O filme pergunta: até que ponto nos transformamos pelo desejo de sermos amados? Powell brilha ao oscilar entre a timidez nerd de Gary e o charme descontraído de Ron, numa atuação cheia de nuances.

A construção de Madison: muito mais que uma “Femme Fatale”?

Linklater e Powell entregaram a Adria Arjona a missão crucial de desenvolver Madison além do arquétipo inicial da femme fatale. A atriz molda uma personagem complexa, que evolui de uma mulher em fuga de um trauma para uma figura astuta e proativa. A química entre Powell e Arjona é otima, carregando a narrativa com um frisson romântico que torna o público cúmplice do improvável casal, mesmo quando a trama mergulha em território criminal.

O grande desafio: a cena do aplicativo de notas

Um dos momentos mais brilhantes e tensos do filme é um verdadeiro ato de malabarismo narrativo. Quando o colega policial corrupto de Gary, Jasper (Austin Amelio), força um último encontro com Madison para incriminá-la, Gary precisa avisá-la sob os olhos atentos do parceiro. A solução? Uma sequência genial em que ele digita um roteiro de emergência no aplicativo de Notas do iPhone e o mostra para Madison na porta de casa. A cena, filmada sem ensaio prévio para capturar a espontaneidade, exige que os atores atuem em três camadas simultâneas: o diálogo falado para a escuta policial, a comunicação física e os olhares que revelam a reconciliação do casal. É um triunfo de direção e interpretação.

Assassino Por Acaso tem final que desafia as convenções?

Sem revelar spoilers, o terceiro ato do filme mergulha de cabeça no território do noir, com reviravoltas que testam os limites éticos dos protagonistas e do espectador. Linklater e Powell conduzem a história para uma conclusão que, fiel ao espírito screwball comedy, privilegia o otimismo e o “felizes para sempre”, ainda que tingido de cinza. A mensagem final é sobre transformação e coragem de viver uma vida mais autêntica – mesmo que o caminho até lá envolva se livrar de um policial corrupto.

“Assassino Por Acaso” é uma prova do talento de Linklater para fundir gêneros com naturalidade e inteligência. É um filme sobre a performance que encenamos no dia a dia, sobre o desejo de reinvenção e, no fundo, uma história de amor inusitadamente cativante. Um verdadeiro acerto em cheio.