A chegada de A Sombra (The Shadow ou Vari no original) ao catálogo do Prime Video amplia o acesso internacional a uma produção recente do cinema estoniano, dirigida por Jaak Kilmi e baseada em roteiro de Indrek Hargla. Ambientado no fim do século XIX, o longa se apoia em fatos históricos, elementos literários e uma trama policial para retratar os últimos dias de liberdade do poeta Juhan Liiv, figura central da cultura da Estônia.
A narrativa se passa em 1894, na cidade de Tartu, então um polo intelectual sob domínio do Império Russo. Logo no início, o filme informa que Liiv está prestes a ser internado em um sanatório por sete anos, sem que haja uma justificativa médica clara. A partir desse ponto, o roteiro acompanha os eventos que levam à sua prisão, mesclando episódios da vida real do poeta com uma história ficcional inspirada no conto The Shadow, escrito pelo próprio Liiv no mesmo período.
Interpretado por Pääru Oja, o protagonista é apresentado como um intelectual inquieto, crítico da russificação forçada e defensor da identidade estoniana. Seus discursos contra o uso do russo nas escolas e contra símbolos do poder imperial funcionam como motor político do filme, sobretudo no primeiro ato. O texto estabelece Liiv como um símbolo da luta por autodeterminação nacional, ainda que a independência da Estônia só viesse a acontecer décadas após sua morte — um dado histórico que o longa opta por não contextualizar.
Ao lado do poeta estão Mari (Alice Siil) e Madjus (Meelis Rämmeld), personagens que atuam como apoio emocional e moral em meio à crescente perseguição das autoridades. No entanto, o equilíbrio inicial entre drama psicológico e comentário histórico começa a se perder quando a trama incorpora um elemento de suspense policial: a presença de um assassino mascarado, cuja estética remete ao horror folclórico. A partir daí, o filme desloca seu foco para uma investigação marcada por violência gráfica, o que altera o tom da narrativa.
Essa transição é um dos pontos mais debatidos de A Sombra. O que começa como um estudo de personagem e um retrato do contexto político estoniano se transforma em uma história de assassinato que, em alguns momentos, parece desconectada das discussões iniciais. O roteiro, embora ambicioso, apresenta rupturas que podem causar estranhamento, especialmente para espectadores que não têm familiaridade com a história ou a literatura da Estônia.

Crítica de A Sombra: vale à pena assistir ao filme no Prime Video?
Do ponto de vista técnico, o filme adota uma abordagem tradicional. Figurinos de época, enquadramentos clássicos e uma decupagem funcional reforçam uma estética próxima à de produções televisivas históricas. Não há uma busca evidente por experimentação formal, o que contribui para uma sensação de previsibilidade em determinados trechos. Ainda assim, a fotografia sustenta uma atmosfera coerente com o período retratado, e a atuação de Oja garante solidez ao personagem central, mesmo sem enfatizar as fragilidades físicas associadas ao Liiv histórico.
Pensado principalmente para o público local, A Sombra dialoga de forma mais direta com quem reconhece suas referências literárias e políticas. Para o espectador internacional, o longa pode funcionar como um thriller de época, ainda que parte de seu subtexto se perca fora do contexto báltico. Sem pretensão de romper convenções, o filme reafirma a trajetória consistente de Jaak Kilmi no audiovisual estoniano, oferecendo uma obra que combina memória histórica, ficção e investigação, ainda que nem sempre de forma equilibrada.