A Garota da Vez (2024) - Crítica do Filme inspirado numa História Real A Garota da Vez (2024) - Crítica do Filme inspirado numa História Real

A Garota da Vez (2024) | Crítica do Filme de Anna Kendrick

A Garota da Vez (Woman of the Hour, 2024) marca a estreia de Anna Kendrick na direção com um filme que se recusa a seguir os caminhos mais confortáveis do thriller sobre serial killers. Inspirado em fatos reais, o longa (disponível atualmente na HBO Max) parte do episódio perturbador em que Rodney Alcala, estuprador e assassino em série, participou do programa The Dating Game em 1978, mas usa esse ponto de partida para investigar algo mais amplo: a forma como a sociedade aprende a ignorar sinais de perigo quando eles estão mascarados por charme, poder ou normalidade.

Kendrick também assume o papel de Sheryl Bradshaw, uma aspirante a atriz que aceita participar do programa de TV em busca de visibilidade profissional. A escolha não é tratada como ingenuidade, mas como consequência direta de um sistema que constantemente empurra mulheres a se exporem para conseguir espaço. O roteiro de Ian McDonald articula essa ideia ao alternar linhas temporais e acompanhar diferentes mulheres que cruzaram o caminho de Alcala, deixando claro que o filme não está interessado apenas em reconstruir crimes, mas em examinar o contexto que permitiu que eles continuassem acontecendo.

Desde a cena inicial, A Garota da Vez estabelece o tema do olhar. Alcala se apresenta como fotógrafo, alguém que observa, enquadra e controla a imagem do outro. Kendrick, como diretora, devolve esse olhar ao público, insistindo em closes prolongados, silêncios incômodos e enquadramentos que colocam o espectador na mesma posição de alerta de suas personagens. O terror não nasce da violência explícita, mas da antecipação, da sensação constante de que algo está fora do lugar.

Esse desconforto também se manifesta nas situações cotidianas. Sheryl precisa rir de comentários machistas, suavizar sua inteligência e tolerar invasões físicas sutis para evitar conflitos maiores. O apresentador vivido por Tony Hale sintetiza essa lógica ao aconselhá-la a ser “agradável”, como se isso fosse uma proteção. O filme mostra como esse comportamento, aprendido como estratégia de sobrevivência, é parte de um mecanismo maior que normaliza a violência masculina ao tratá-la como exceção ou exagero.

Daniel Zovatto constrói um Rodney Alcala inquietante justamente pela ausência de exageros. Seu personagem transita entre simpatia e ameaça sem mudanças bruscas, reforçando a ideia de que o perigo, muitas vezes, não se apresenta de forma óbvia. Em contraponto, Autumn Best se destaca como Amy, uma adolescente em fuga cuja trajetória concentra alguns dos momentos mais tensos do longa, especialmente no terceiro ato, quando Kendrick alonga as cenas e aposta na espera como ferramenta narrativa.

Fatos e curiosidades de A Garota da Vez, Filme de Anna Kendrick

Crítica: vale à pena assistir A Garota da Vez no streaming?

As comparações com Zodíaco, de David Fincher, são inevitáveis, mas A Garota da Vez segue outro caminho. Enquanto muitos filmes de true crime se concentram na obsessão em torno do criminoso, aqui o foco está nas falhas institucionais, no descrédito sistemático das mulheres e na facilidade com que Alcala foi subestimado por policiais, produtores de TV e homens ao seu redor. A violência nunca é estilizada; quando se aproxima do explícito, a diretora recua, interrompe a cena e obriga o público a confrontar seu próprio olhar.

Ao final, A Garota da Vez se afirma como um filme menos interessado em chocar e mais em questionar. Kendrick usa sua estreia na direção para propor uma reflexão incômoda sobre quem é ouvido, quem é ignorado e quais histórias costumam ser levadas a sério. É um thriller que entende que o verdadeiro horror não está apenas nos crimes cometidos, mas no ambiente que permitiu que eles se repetissem por tanto tempo.