A Corrida dos 100 Metros (100 Meters, 2025) - Crítica do Filme Anime da Netflix A Corrida dos 100 Metros (100 Meters, 2025) - Crítica do Filme Anime da Netflix

A Corrida dos 100 Metros (2025) | Crítica do Filme (Anime) | Netflix

Disponível na Netflix (assista), A Corrida dos 100 Metros (100 Meters, 2025) confirma Kenji Iwaisawa como um dos cineastas mais interessados em investigar o movimento como expressão do conflito humano. Adaptado do mangá de Uoto, o filme utiliza o esporte mais curto e explosivo do atletismo para refletir sobre tempo, repetição, frustração e amadurecimento. A narrativa acompanha mais de uma década da vida de dois corredores cujas trajetórias se cruzam sem nunca se fundirem completamente, revelando como encontros breves podem moldar escolhas duradouras. Confira a nossa crítica do anime:

A perfeição pela repetição: a trama de 100 Meters

Ambientado no Japão contemporâneo, o longa se estrutura a partir de uma premissa simples: correr sempre o mesmo percurso, com o mesmo objetivo, tentando fazê-lo melhor a cada vez. O que muda não é a linha de chegada, mas a relação dos personagens com ela. Iwaisawa constrói sua história a partir dessa constância, transformando a repetição em ferramenta dramática e temática.

O protagonista Togashi é apresentado ainda criança, já reconhecido por sua velocidade natural nos 100 metros rasos. Para ele, correr é prazer, facilidade e identidade. O movimento do corpo surge como algo orgânico, quase automático, e o filme reforça isso por meio da animação fluida e da postura confiante do personagem em cena. Togashi corre porque pode, porque é bom nisso, e porque o esporte oferece um senso imediato de pertencimento.

A dinâmica muda com a chegada de Komiya, um aluno transferido que corre mal, se cansa rápido e cai com frequência. Diferente de Togashi, Komiya não encontra prazer imediato na corrida. Ele corre justamente porque é difícil. O diálogo inicial entre os dois, no qual um afirma gostar de correr e o outro admite odiar o esforço, estabelece o eixo dramático do filme. A partir desse contraste, A Corrida dos 100 Metros constrói uma relação indireta de rivalidade, admiração e espelhamento.

Embora compartilhem o mesmo espaço competitivo, Togashi e Komiya raramente dividem longas interações. O filme entende que algumas relações não se definem pela proximidade constante, mas pela influência silenciosa. Cada um observa o outro à distância, ajusta suas próprias expectativas e redefine o significado da corrida em fases distintas da vida. A narrativa acompanha essas mudanças sem recorrer a grandes discursos, apostando na repetição das provas como marcador de tempo e transformação.

Fatos e Curiosidades de A Corrida dos 100 Metros (100 Meters, 2025)

Essa estrutura cíclica dialoga com outras obras que refletem sobre o esporte como metáfora da existência, mas encontra identidade própria ao focar nos 100 metros. A curta duração da prova contrasta com os anos de preparação, derrotas e persistência. Iwaisawa explora essa contradição ao mostrar como um evento de poucos segundos pode carregar o peso de decisões que atravessam a juventude e a vida adulta.

Visualmente, o filme se destaca pelo uso da rotoscopia, marca registrada do diretor. A técnica confere fisicalidade às cenas de corrida, enfatizando respiração, postura, desgaste muscular e pequenos gestos antes e depois das provas. Cada personagem corre de forma distinta, e essa diferença não é apenas estética, mas narrativa. O corpo revela o estado emocional, a confiança ou a dúvida, sem necessidade de explicações verbais.

O design de personagens, assinado por Keisuke Kojima, respeita o traço original do mangá e reforça a passagem do tempo por meio de mudanças sutis na expressão e na postura. A animação evita excessos estilísticos e busca equilíbrio entre realismo e abstração, especialmente nos momentos em que a pressão psicológica deforma o traço e amplia a sensação de vulnerabilidade.

A Corrida dos 100 Metros (100 Meters, 2025) - Crítica do Filme Anime da Netflix

A trilha sonora de Hiroaki Tsutsumi acompanha esse movimento com discrição. As composições são leves, ritmadas e pontuadas por melancolia, funcionando mais como extensão do estado interno dos personagens do que como guia emocional explícito. Há ecos de Ping Pong the Animation na forma como rivalidade e autoconhecimento se entrelaçam sem recorrer a fórmulas convencionais do gênero esportivo.

Crítica de A Corrida dos 100 Metros: vale à pena assistir ao anime na Netflix?

Em sua essência, A Corrida dos 100 Metros é um estudo sobre resistência mental e persistência. O filme evita clímax grandiosos e prefere observar como pequenas variações de atitude podem redefinir um percurso aparentemente imutável. Ao transformar uma corrida de dez segundos em um retrato de anos de tentativas, o anime encontra força na contenção e na observação cuidadosa.

Mais do que um anime esportivo, 100 Meters se apresenta como uma reflexão sobre o que nos move a continuar, mesmo quando o esforço parece não trazer recompensas imediatas. Ao final, a corrida permanece a mesma, mas os corredores já não são.