A Conexão Sueca, nova estreia da Netflix, se junta ao grupo de produções que revisitam a Segunda Guerra Mundial a partir de um ponto de vista menos explorado pelo cinema tradicional. Inspirado em uma história real e dirigido por Thérèse Ahlbeck e Marcus Olsson, o filme abandona o campo de batalha para observar a resistência silenciosa travada dentro da burocracia do Estado sueco. Leia a nossa crítica.
A narrativa acompanha a trajetória de Gösta Engzell, chefe do Departamento Jurídico do Ministério das Relações Exteriores da Suécia durante o conflito. Em um país oficialmente neutro, mas cercado por territórios ocupados pelo regime nazista, Engzell e sua equipe lidam com os limites morais da legalidade. Inicialmente presos a normas rígidas de imigração e a decisões políticas cautelosas, esses funcionários passam a questionar o próprio papel quando surgem evidências de que judeus deportados não estão apenas sendo presos, mas exterminados.
O filme se constrói a partir desse dilema ético. Em vez de heroísmos espetaculares, A Conexão Sueca aposta na ideia de resistência administrativa: vistos, documentos e interpretações jurídicas se transformam em ferramentas de salvação. Ahlbeck e Olsson organizam o drama em espaços confinados — escritórios apertados, corredores institucionais e salas de arquivo — reforçando visualmente o contraste entre a aparente insignificância da papelada e o impacto concreto que ela pode ter sobre milhares de vidas.
Um dos elementos mais singulares da produção é o uso de humor contido nos primeiros atos. A leveza inicial, sustentada por diálogos secos e situações burocráticas quase absurdas, cria uma tensão particular ao ser gradualmente substituída por um tom mais sóbrio. Essa mudança pode soar irregular para parte do público, mas também reflete o próprio processo vivido pelos personagens: à medida que a dimensão do horror se torna incontornável, não há mais espaço para distanciamento irônico.
Tecnicamente, o filme se mostra consistente. A direção de arte recria com cuidado os ambientes institucionais da Suécia dos anos 1940, enquanto a fotografia aposta em uma paleta discreta, alinhada à sobriedade da narrativa. A montagem mantém o ritmo mesmo em cenas centradas em discussões jurídicas, e o desenho de som evita excessos, reforçando a atmosfera de vigilância constante e ameaça velada.
O elenco sustenta a proposta com interpretações que privilegiam a contenção. O protagonista é retratado não como um herói tradicional, mas como um funcionário comum confrontado por decisões que ultrapassam o protocolo. Os personagens ao redor — colegas, superiores e figuras políticas — ajudam a ilustrar a engrenagem estatal que tanto pode paralisar quanto permitir ações decisivas.

Crítica do filme: vale à pena assistir A Conexão Sueca na Netflix?
A Conexão Sueca se destaca por lembrar que a neutralidade, em contextos de violência sistemática, também é uma escolha política. Ao transformar a burocracia em campo de conflito moral, o filme propõe uma reflexão atual sobre responsabilidade individual dentro de sistemas institucionais. Sem recorrer a grandes discursos ou cenas de ação, a produção encontra força justamente naquilo que costuma passar despercebido: o poder silencioso das decisões administrativas.