Disponível recentemente na Netflix Brasil, A Cidade dos Sonhos (City of Dreams, 2023) é o mais novo filme escrito e dirigido por Mohit Ramchandani e se debruça sobre um dos temas mais sensíveis do cinema contemporâneo: o tráfico humano. Inspirado em eventos reais, o longa busca provocar indignação e conscientização, mas acaba preso a convenções narrativas do thriller, o que compromete parte de seu impacto social. Leia a nossa crítica.
Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro que pretende equilibrar denúncia e entretenimento. No entanto, essa escolha resulta em um tom instável. Em vários momentos, a narrativa opta por recursos previsíveis de suspense e melodrama, reduzindo a complexidade de um problema que exigiria uma abordagem mais aprofundada. A mensagem é clara, mas o roteiro raramente vai além do óbvio.
As comparações com O Som da Liberdade (2023), dirigido por Alejandro Monteverde, surgem de forma quase inevitável. Ambos tratam do tráfico de pessoas e compartilham produtores executivos. A diferença está na intenção: Ramchandani evita transformar seu filme em um discurso político direto, priorizando o sofrimento das vítimas em vez de atribuir responsabilidades ideológicas explícitas. Ainda assim, a tentativa de se manter neutro também limita o alcance crítico da obra.
A trama acompanha Jésus (Ari Lopez), um jovem mexicano seduzido pela promessa de uma carreira no futebol, mas que acaba traficado para os Estados Unidos e forçado a trabalhar em uma fábrica clandestina. O ambiente fechado, sem janelas, funciona como metáfora óbvia, mas eficaz, reforçada pela fotografia de Alejandro Chávez e Trevor Roach, que utiliza feixes de luz como símbolo de esperança restrita. É nesse espaço que crianças de diferentes idades vivem sob vigilância constante, submetidas a metas diárias impostas por seus exploradores.
Os antagonistas vividos por Alfredo Castro e Andrés Delgado seguem arquétipos conhecidos do gênero, ainda que o roteiro tente humanizá-los pontualmente. Essas breves tentativas de contextualização, no entanto, não são suficientes para torná-los personagens complexos, servindo mais como justificativa narrativa do que como reflexão real sobre ciclos de violência.
No núcleo emocional da história, Jésus desenvolve uma relação com Elena (Renata Vaca), também vítima do tráfico humano. O filme sugere momentos de afeto, mas rapidamente reduz a personagem a um instrumento de choque, sem oferecer desenvolvimento adequado. Sua função dramática acaba sendo limitada, o que enfraquece o discurso que o longa tenta sustentar.

Jason Patric interpreta um policial que suspeita das atividades ilegais na fábrica, mas encontra sucessivos obstáculos institucionais para avançar na investigação. O personagem representa uma crítica direta à ineficiência do sistema e à influência do poder econômico, mas sua trajetória é interrompida de forma abrupta, deixando essa linha narrativa sem a conclusão que parecia prometer.
Crítica do filme: vale à pena assistir A Cidade dos Sonhos na Netflix?
O filme toca, ainda que superficialmente, em questões relevantes como a facilidade com que interesses financeiros bloqueiam investigações e a fragilidade das estruturas de fiscalização. São temas que poderiam enriquecer o debate, mas que permanecem apenas sugeridos. No ato final, A Cidade dos Sonhos recorre a uma montagem de declarações políticas e reportagens reais, reforçando sua intenção social, embora de forma pouco orgânica.
Ao final, City of Dreams se apresenta como um alerta importante, mas limitado. Ao priorizar o suspense e recorrer repetidamente a cenas de choque, o filme dilui a força de um tema que exige mais profundidade e menos formulação. A urgência está presente, mas o olhar crítico permanece na superfície.