Um milhão de finais felizes, de Vitor Martins | Crítica

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Um milhão de finais felizes é uma história de amor, mas não como estamos acostumados a ler

um milhão de finais felizes, de vitor martins - capa

Jonas se sente uma fraude, um completo fracasso. No início da vida adulta, ele se vê perdido, sem saber o que fazer da vida, sem ter iniciado uma faculdade, sem conseguir contar a verdade para a sua família sobre si mesmo. Até então, sua maior vitória havia sido conseguir um emprego como atendente em um café gourmet chamado Rocket Cafe, no qual é obrigado a usar um avental holográfico e fingir que é feliz.

O ponto alto do seu dia é conversar com sua amiga do trabalho, a maravilhosa Karina, enquanto finge que está tudo bem apenas sobreviver aos dias fingido que não se sente morto por dentro sempre que chega em casa e ser uma pessoa que nunca foi, por medo da rejeição dos pais extremamente conservadores e, principalmente, da mãe muito religiosa, que tenta a todo custo levá-lo novamente para dentro da igreja. Mas é no meio dessa infelicidade que Jonas conhece Arthur, um rapaz lindo, de barba ruiva e que vai fazer a sua vida tomar um novo rumo e, quem sabe, a um final muito feliz.

Minha humilde opinião

Falando assim, parece que Um milhão de finais felizes é apenas mais uma linda história de romance em que o mocinho encontra o amor da sua vida e passa a ser feliz. Na verdade, não é uma conclusão errada, apenas não é exatamente assim.

O livro, a meu ver, é sobre amadurecimento. É sobre fazer escolhas difíceis, sobre ser empurrado aos poucos até a beira do penhasco e não ter opção a não ser pular. Desse pulo, você só tem duas escolhas: ou cai ou voa. E, queridos, como é lindo o voo de Jonas.

Com uma sensibilidade deliciosa, Vitor constrói as inseguranças, os medos, os sonhos, as confusões internas do jovem protagonista, nos envolvendo em sua história de maneira certeira. Quando mal percebemos, já estamos torcendo por ele, amando cada passo novo em sua jornada de auto descoberta e querendo segurar a sua mão quando as coisas começam a dar muito errado.

Jonas é gente como a gente. Mesmo sendo mulher, como parte da sigla LGBTQI+, eu senti seus medos em relação aos pais conservadores, o medo de ser rejeitado por simplesmente amar sem as amarradas da sociedade. E, como ser humano, senti todas as dores dele quanto a se sentir perdido e desamparado, e sentir a sua alegria ao poder contar com o apoio de pessoas incríveis e amorosas para se reerguer.

Um milhão de finais felizes é sim uma história de amor, mas não como estamos acostumados a ler. E você será uma pessoa muito insensível se terminar a leitura sem ter derramado uma lágrima com Jonas durante o seu árduo caminho, que, no fim das contas, está apenas começando.

E a representatividade?

Eu percebi que muitas pessoas já enchem a boca para falar desse assunto, já que o livro passa longe do habitual padrão heteronormativo. E, em quesito representatividade, o autor acerta demais. Além de falar com sensibilidade da realidade de muitas pessoas que não são aceitas por não se encaixarem na ideia distorcida de pais de que filhos deveriam ser o fruto de suas expectativas, ele construiu as relações  de maneira real, sem enfeitar as pessoas para parecerem melhores do que são. E, quando se tratam de mulheres, não houve ofensas, nenhuma indicação de rixas estúpidas ou rivalidade feminina – no máximo um ciúme de amizade, que nada tem a ver com gênero.

Vitor não precisa levantar nenhuma bandeira e acenar, mas tudo o que precisamos ler está ali. E é uma leitura muito, mas muito deliciosa.