Edipo Pereira

2 dez, 2021

Hqs e Livros

A essa altura, qualquer ser humano dotado do mínimo de massa cinzenta na cachola sabe a diferença entre ser portador do vírus HIV e ter AIDS. Para os que não sabem, vale jogar num buscador da internet e se informar minimamente para não sair reproduzindo falas preconceituosas por aí. Porém, no começo deste século, Frederik Peeters fez o que praticamente ninguém conseguiu e trouxe o tema de um modo singular com seu quadrinho Pílulas Azuis.

Iniciada em 2001 e publicada em 2015 pela Editora Nemo no Brasil, a trama acompanha a trajetória do próprio autor e de como ele conhece e se relaciona com Cati, uma garota que é mãe solo e ao mesmo tempo soropositiva, tanto ela quanto o filho.

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Não é o fim do mundo

O mérito mais evidente desta obra é a habilidade de Peeters em desmitificar o tema, mostrando que a vida de uma pessoa soropositiva pode ser levada com considerável normalidade. Claro que, para isso, precisamos levar em consideração a particularidade da vida do autor, que está num ambiente onde se tem condições adequadas para um tratamento digno, seja ele particular, estatal ou um pouco das duas formas.

Para entender melhor: na HQ, vemos o quanto ele tem resistência aos médicos, muito devido ao fato do paciente ceder a esse profissional um ângulo que nem ele mesmo possui sobre si, lhe conferindo certo poder. Num país como nosso, a principal preocupação vai ser se ao menos teremos algum médico querendo nos atender.

Posto isso, é colocado de forma criativa e bem-humorada diversas questões sobre o assunto, como o uso de preservativos, sexo oral etc. Mas a obra não soa exatamente como didática, pois o que mais nos prende são os personagens e como se relacionam. Méritos do artista.

Outro elemento que confere qualidade à obra são os pensamentos do autor/protagonista a respeito do vírus e seu amor por Cati. Será que eles teriam se relacionado caso ela não fosse soropositiva? Seja pelos diferentes rumos que ela poderia ter tomado na vida ou por qualquer outro motivo, a resposta é: provavelmente não. Isso o leva a considerar se, no final das contas, o vírus não tenha sido algo bom na sua vida. O auge dessa vertente em Pílulas Azuis é quando Frederik está dialogando com um mamute num de seus devaneios. O extinto animal, símbolo de sabedoria, está acompanhado nesta obra de outros como o rinoceronte, numa fantástica analogia do carismático médico ao longo da trama.

No entanto, esses devaneios nunca extrapolam a definição da própria palavra, uma vez que o protagonista não se preocupa em concluir nada na sua cabeça. Ao invés disso, ele vai vivendo cada dia e se envolvendo cada vez mais.

Vale ressaltar que Frederik Peeters consegue mostrar todo seu amor por Cati nas páginas sem precisar lançar mão de recursos visuais mais fortes, tornando essa HQ bem leve nesse sentido. Claro que, pensando na perspectiva de derrubar tabus, talvez fosse melhor que houvessem esses recursos (um beijo ou contato mais intenso), mas como o quadrinho envolve pessoas reais e temas para além do HIV, a decisão do autor é compreensível.

Até porque essa história possui um viés familiar muito forte, desde a forma gradativa na qual o autor vai se afeiçoando ao enteado até a sensacional sequência final mostrando como os personagens estão 13 anos depois, dando a Pílulas Azuis um toque de documentário. Mais uma excelente dica de leitura vinda da Editora Nemo, que pertence ao Grupo Autêntica e segue uma linha editorial muito interessante nas suas escolhas, com obras introspectivas e de imaculado cunho autoral.

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